quarta-feira, 30 de julho de 2008

Filantropia sem mudar o sistema é um erro

A superioridade de quem pratica a filantropia e o erro de não reconhecer o problema do sistema que tanto beneficiou alguns poucos em detrimento da maioria é parte do problema. Esse texto de Michael Edwards, encaminhado por Danilo Giorgi é importante para essa discussão.
Os mitos e realidades do filantropo-capitalismo
Por Michael Edwards*
Nos últimos 12 meses, a caixa de entrada de meu computador, como a do seu, vem sendo inundada com notícias de conferências, palestras, artigos e relatórios que prometem "salvar o mundo" revolucionando a filantropia, fazendo com que as organizações sem fins lucrativos operem como negócios, e criando novos mercados para produtos e serviços que beneficiam a sociedade.

Os defensores desta abordagem, apelidados de "filantropo-capitalismo", para abreviar, acreditam que os princípios dos negócios podem ser combinados com sucesso com a busca da transformação social. Não há dúvidas de que se trata de um fenômeno importante. Grandes somas estão sendo geradas para a filantropia, especialmente na indústria financeira e na indústria de informática.

Apesar do seu grande potencial, esse movimento é falho tanto nos meios que propõe quanto nos fins prometidos. Ele vê os métodos dos negócios como resposta aos problemas sociais, mas oferece poucas evidências ou análises rigorosas para embasar essa alegação e ignora as fortes evidências que indicam o contrário. Os negócios continuarão a ser uma parte essencial da solução dos problemas globais e alguns métodos dos negócios certamente têm muito a contribuir.

Mas os negócios também serão causa de problemas sociais. Como Jim Collins, autor de “Good to Great”, concluí em um livro recente "devemos rejeitar a idéia, bem-intencionada, mas totalmente errônea, de que o caminho principal para a grandeza dos setores sociais é se tornarem mais como o setor de negócios". [1]

A outra promessa do filantropo-capitalismo é alcançar transformações de grande escopo resolvendo problemas sociais arraigados, ainda assim, sua falta de compreensão de como ocorrem as mudanças mostra que essa promessa provavelmente não será cumprida. Existe um grande abismo entre o modismo que cerca essa nova filantropia e seu impacto potencial. Alguns dos mais novos filantropos já perceberam isso e mostraram tanto humildade quanto vontade de aprender sobre as complexidades da mudança social, mas muitos outros permanecem vítimas do modismo.

O filantropo-capitalismo tem uma peça importante do quebra-cabeças de como alinhar democracia e mercado, mas corre o risco de se colocar como a solução total, minimizando a importâncias dos custos e das perdas de se estender os princípios do mercado à transformação social. Meu argumento é que:

• O modismo que cerca o filatropo-capitalismo é muito maior do que sua capacidade de conseguir resultados reais. É hora de mais humildade.
• A concentração cada vez maior de riqueza e poder entre os filantro-capitalistas é prejudicial à saúde da democracia. É hora de mais responsabilização.
• O uso da lógica dos negócios e do mercado pode prejudicar a sociedade civil, que é crucial para a transformação política e social democrática da sociedade. É hora de diferenciar as duas e reafirmar a independências da ação cívica mundial.
• O filantropo-capitalismo é sinônimo de um mundo desordenado e profundamente desigual. Ele ainda não demonstrou que pode fornecer a cura.

É justificável a empolgação com as possibilidades de avanço na saúde, agricultura e acesso a microcrédito para os pobres do mundo, estimulados pelos enormes investimentos da Fundação Gates, Clinton Global Initiative e outras. Novos empréstimos, sementes e vacinas certamente são importantes, mas não existe vacina contra o racismo que nega terra aos dalits (os assim chamados intocáveis) na Índia, nenhuma tecnologia pode propiciar a infra-estrutura de saúde para combater o HIV e nenhum mercado pode organizar as relações disfuncionais entre as diferentes religiões e outros grupos sociais que reforçam a crescente violência e insegurança.

Atacando os sintomas e não a causa

O filantropo-capitalismo pode alegar que ataca as "grandes desigualdades" da sociedade, mas elas são causadas pela natureza de nosso sistema econômico e a incapacidade da política alterá-la. As disparidades de riqueza e educação são sintomas desses problemas e reaparecerão em todos os lugares em que as causas não forem resolvidas. O conceito não reconhece essa lição básica da história e corre o risco de mascarar a verdadeira natureza das tarefas que enfrentamos.

Apenas os mais visionários filantropo-capitalistas têm incentivo suficiente para transformar um sistema dos quais eles se beneficiaram enormemente.

Será que o filantropo-capitalismo teria ajudado a financiar o movimento dos direitos civis nos Estados Unidos? Espero que sim, mas esse movimento não era "dirigido pelos dados", não operava através da concorrência, não gerava muita receita e não media seu impacto em termos de números de pessoas beneficiadas a cada dia. Mas ainda assim ele mudou o mundo para sempre.

O filantropo-capitalismo é importante? Certamente que sim, mas poderá se mostrar mais efêmero do que os seus proponentes alegam. Os objetivos que eles mesmos definiram serão alcançados? Provavelmente não, embora algum bem, sem dúvida, será feito ao longo do caminho. Ele vai avançar os esforços de outros para alavancar mudanças profundas na sociedade? Não, a menos que decida mudar de rumo e aprender a aceitar que existem custos e contradições na mistura de negócios com objetivos sociais.

Hora de um novo tipo de debate

Se as bases deste movimento são tão fracas, por que não deixar que ele se queime como tantos outros modismos antes dele? Não se trataria de "apenas mais um imperador que está nu", esperando que alguém corajoso ou tolo reconheça sua nudez em público? Acredito que este seria um grave erro porque não podemos ignorar o que eu chamo de "pergunta de 55 trilhões de dólares" - a quantidade estimada de recursos filantrópicos a serem gerados apenas nos Estados Unidos nos próximos 40 anos.

Vamos usar esses imensos recursos na busca de transformações sociais ou apenas desperdiçá-los gastando-os nos sintomas? Se ignorarem essa pergunta, os filantropos podem acabar sendo vítimas da mesma reação adversa que receberam as concentrações anteriores de riqueza e poder.

Então, o que fazer? Acho que chegou a hora para um tipo diferente de conversa, menos dominada pelos modismos e mais aberta a vozes diferentes e dissidentes. O resultado será, sem dúvida nenhuma, confuso e descômodo para alguns, mas será mais democrático e muito mais eficaz em nutrir novas estratégias ousadas da mudança social e econômica. A sociedade civil deve participar deste debate como um parceiro igual e independente, orgulhoso de suas realizações e suas conquistas, e sem medo de rejeitar ou criticar modelos de negócios que sejam inadequados aos seus propósitos. O resultado seria, sem dúvida, um mundo transformado.


* Michael Edwards é autor de vários livros e artigos sobre o papel da sociedade civil mundial. Na publicação deste artigo, ele é Diretor de Governança e Sociedade Civil da Fundação Ford, mas escreve inteiramente na capacidade de indivíduo e quer agradecer à Fundação Ford por permitir que ele estivesse de licença quando escreveu este artigo. Os pontos de vista expressos neste artigo não devem ser tomados como representando as opiniões nem as políticas da Fundação Ford.
[1] Jim Collins (2006), “Good to Great and the Social Sectors”, Century.

Para pedir ou baixar

O novo folheto de Michael Edwards, Just Another Emperor? The myths and realities of philanthrocapitalism está disponível no Amazon ou para download gratuito nos seguintes sites: http://www.demos.org/_, http://www.youngfoundation.org/_ e http://www.futurepositive.org/_.

terça-feira, 29 de julho de 2008

Ninguém lamenta as descobertas de petróleo

Tudo indica que ainda iremos comemorar com descobertas de petróleo, ao invés de lamentá-las. Tudo indica que não entendemos ainda o risco de extinção que a queima de combustível fóssil na nossa finíssima atmosfera já provocou e continuará provocando. O aquecimento global não é o problema, mas um dos problemas, mas embora muitos considerem "o" problema, ainda vemos a sabedoria comum comemorando as descobertas do petróleo sem enxergar os grandes riscos que isso representa.

O nosso modelo mental está longe de mudar. Deriva de uma crise de valores seculares, apoiado por uma visão econômica alimentada por governos, empresas e finalmente por economistas, que não passa de uma teoria falsa, com resultados falsos e com uma clara tendência inequívoca ao colapso ou guerras.

Em primeiro lugar, o mais espantoso é ninguém falar do excesso de demanda de energia, da crescente demanda de energia, do desperdício, da ineficiência, pois sabemos claramente que se adotássemos consumo eficiente a demanda por energia no Brasil reduziria 50%, se atualizássemos tecnologicamente as usinas já existentes e as linhas de transmissão teríamos um ganho de oferta equivalente a 90% em um ano! Para quê, se podemos construir usinas nucleares e usinas hidrelétricas? A maior ameaça do aquecimento global é o fim da água e não é a única ameaça, precisamos frisar isso. A maior ameaça da destruição da Amazônia e do Cerrado é o fim da água, pois 95% dos recursos hídricos da região sudeste e do aqüífero Guarani dependem desses ecossistemas.

O mais estranho é que ninguém questiona uma visão pela qual assume que se há fome no mundo, é porque falta produção de alimentos e não desperdício, ineficiência e excesso de gente num planeta finito como a Terra, não só em recursos tangíveis, mas em serviços ecológicos irreproduzíveis por qualquer tecnologia e que sem os quais nenhuma forma de vida irá sobreviver. Um bom exemplo é a crise das abelhas do hemisfério norte. Nós somos totalmente dependentes da natureza, na verdade, todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos.
Mas o ataque ao planeta se justifica pelas enormes benesses sociais que irão ser geradas, sem percebermos que o emprego é um resultado tautológico da expansão econômica, sem a qual os empregos desaparecem e pior, o número de empregos não revela a situação de bem estar, de aprendizado, de liberdade e de independência dos trabalhadores. Desde 1970 os indicadores sociais dos países ricos vem caindo, lado a lado com concentração de riqueza recorde.

O ataque ao planeta não vai acontecer, antes disso iremos percer, porque replicar o modelo dos países ricos é impossível, posto que esses países só conseguiram ficar ricos sem causar um colapso planetário porque fizeram isso sozinhos. E quando esses países atingiram o seu próprio colapso ambiental local, começaram a exportar para o resto do mundo via comércio global, comemorado por todos, e a custo zero, porque no nosso sistema de preços - ratificado pela teoria econômica falsa - o custo ambiental e social é sempre zero. Agora estamos numa situação de desigualdade social enorme e o planeta acaba na hora que todos forem atrás do atraso, dentro do mesmo modelo econômico da economia do descarte, do desperdício, da ineficiência e da necessidade de crescer sempre, embora fisica e planetariamente isso seja uma rota suicida. Ou mudamos esse modelo, ou perecemos. Está na hora de mudar tudo: matriz energética, teoria econômica, modelo de produção e consumo, pois o tempo é mais do que curto, por conta do feedback positivo planetário, da mudança que pode ocorrer contra a vida não ser linear e sim abrupta e pelo fato de termos um inventário apavorante de atrasos ecológicos se intensificando com a continuidade dos mesmos processos de sempre que transformaram a Terra numa lixeira e conosco dentro. E vivos, o que é muito pior.

Finalmente: governo adotará consumo consciente!

Compras públicas passarão a seguir critérios ambientais
Governo federal prepara decreto para estimular produção sustentável
Adriana Fernandes e Fabíola Salvador, BRASÍLIA

Todas as compras do governo federal terão de seguir regras de sustentabilidade. Decreto em elaboração no governo vai regulamentar as compras da administração pública, autarquias, fundações e empresas estatais com base em critérios de menor impacto ambiental e geração de resíduos.

O decreto terá de ser regulamentado por cada órgão e a idéia é que Estados e municípios adotem os mesmos princípios. Juntas, as compras públicas representam cerca de 15% de todo o Produto Interno Bruto (PIB).

As novas regras fazem parte do Plano de Ação para a Produção e Consumo Sustentável que deverá ser lançado em agosto pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Com esse mecanismo de maior rigor nas compras, o governo quer estimular a produção ambientalmente correta.

Segundo o diretor do Departamento de Economia do Ministério do Meio Ambiente, Luiz Fernando Merico, por causa do poder de compra do governo, o decreto deve provocar mudanças importantes na atuação dos fornecedores. "As regras induzem as empresas a produzirem bens com mais responsabilidade ambiental", disse.

Papel, produtos de limpeza, mobiliário, combustíveis, lâmpadas, uso de energia, alimentos e até mesmo a merenda escolar terão de ser comprados com base na nova orientação. Alguns dos exemplos mais comuns são o uso de lâmpadas e equipamentos que reduzem o consumo de energia, papel reciclado e móveis produzidos com madeira certificada.

Portaria baixada este ano pelo Ministério do Meio Ambiente já determina internamente a adoção de compras sustentáveis. É o primeiro passo para a mudança em todo o governo federal. O decreto vai regulamentar artigo da Lei das Licitações (8.666/93) e estabelecer a Política de Licitações Públicas Sustentáveis no governo federal.

"Há uma quantidade muito grande de produtos que são adquiridos pelo poder público que podem ser produzidos com o conceito de produção mais limpa", afirma Merico. O conceito de produção mais limpa (P+L) foi definido pelas Nações Unidas no início dos anos 90, com a adoção de uma estratégia ambiental aplicada aos processos produtivos e de serviços. Anos depois, o conceito levou à idéia da produção e consumo sustentável, que tem ganhado cada vez mais espaço na agenda das empresas e dos consumidores.

VAREJO

O plano também vai focar medidas para a redução do uso de agrotóxicos na agricultura e de estímulo ao consumo sustentável no varejo. Setor da economia que representa 30% do PIB, o varejo é um segmento no Brasil que agora começa a se voltar para práticas de sustentabilidade, atrás da indústria, que saiu na frente. "Vamos traçar uma estratégia nacional de sustentabilidade do setor de varejo", disse o diretor.

O plano federal prevê ainda o desenvolvimento de indicadores em produção e consumo sustentável em articulação com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Fonte:

Palestra na Agência Nacional das Águas

Economista dará palestra na ANA sobre a "ecoeconomia"
Raylton Alves
Os temas economia e meio ambiente vêm sendo cada vez mais correlacionados. Não por acaso, o economista Hugo Penteado redigiu o livro Ecoeconomia – Uma nova abordagem. O autor estará na sede da Agência Nacional de Águas (ANA), em Brasília, em 31/07, às 10h, para proferir uma palestra e participar de um debate sobre o tema do livro. O evento é gratuito e aberto ao público.
Ecoeconomia trata das conexões que há entre os seres humanos e o meio ambiente. O autor analisa que, do modo que se relaciona com os recursos naturais, a humanidade caminha para um colapso sócio-econômico-ambiental. Entre outros temas, Hugo Penteado expõe que as principais teorias econômicas tendem a reforçar o mito da inesgotabilidade de recursos naturais.
Hugo Penteado
O economista possui mestrado em Economia pelo Instituto de Pesquisas Econômicas da Universidade de São Paulo. Atualmente é estrategista de investimentos e economista-chefe de um grande banco internacional.
Serviço
Local: Setor Policial (SPO), Área 5, Quadra 3, Bloco "M", Sala de Vidro
Data: 31/07
Horário: das 10h às 12h

segunda-feira, 28 de julho de 2008

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Médico sugere menos filhos para salvar planeta

25/07/2008 - 09h36
Médico sugere menos filhos para salvar planeta

Um editorial publicado na edição desta sexta-feira da revista científica britânica British Medical Journal afirma que ter menos filhos é uma forma de contribuir para o combate ao aquecimento global.O artigo, assinado pelo professor de planejamento familiar do University College, de Londres, John Guillebaund, afirma que ''a população mundial atualmente excede 6,7 bilhões e o consumo de combustíveis fósseis, água potável, colheitas, peixes e florestas excedem a demanda''.Segundo o especialista, ''estes fatos estão relacionados'', uma vez que cada pessoa que nasce contribui para a emissão de gases poluentes e é impossível escapar da pobreza sem que haja um aumento dessas emissões.Guillebaund conclui que ''aplicar contracepção ajuda, portanto, a combater as mudanças climáticas, ainda que não seja um substituto direto para a redução das emissões per capita de elevados emissores''.MitosO autor destaca que o senso comum econômico diz que casais pobres muitas vezes preferem ter vários filhos para compensar a alta mortalidade infantil, fornecer mão de obra para aumento da renda familiar e cuidar dos pais quando eles estão mais velhos, fatores que, endossados por argumentos religiosos e culturais, reforçam a aceitação de grandes famílias.Mas ele afirma que ''os economistas tendem a ignorar o fato de que relações sexuais no período fértil são mais freqüentes do que o mínimo necessário para ter concepções intencionais. Portanto, ter uma família maior em vez de uma menor é menos uma decisão planejada do que um resultado automático da sexualidade humana''.Para Guillebaund, ''algo precisa ser feito para separar o sexo da concepção - ou seja, a contracepção''. Mas ele acrescenta que o acesso à contracepção é muitas vezes difícil, devido a abusos por parte de maridos, parentes, autoridades religiosas ou até ''lamentavelmente'' fornecedores de anticocepcionais.O editorial afirma que a demanda por anticoncepcionais aumenta quando eles se tornam acessíveis e quando as barreiras à sua obtenção são derrubadas, acompanhadas de informações apropriadas relativas à sua segurança e uso.O autor procura derrubar algumas crenças e reforçar outras que haviam sido desacreditadas. Ele lembra que no século 18, Malthus previu que com o aumento significativo da população, a escassez de alimentos seria inevitável.E que a chamada ''revolução verde'', idealizada pelo agrônomo americano Norman Borlaug, aparentemente provou que Malthus estava errado, mas que o significativo aumento populacional vem levando a uma escassez de alimentos sem precendentes, à escalada de preços e a protestos violentos.Guillebauns enfatiza ainda que das inovações da ''revolução verde'', como o amplo uso de fertilizantes, pesticidas, tratores e transporte, hoje também contribuem para o aquecimento global, uma vez que dependem de combustíveis fósseis.

AMEAÇAS AMBIENTAIS CRESCENTES

Clóvis Cavalcanti
Economista e pesquisador social
clovis.cavalcanti@yahoo.com.br
No livro de J.B. Foster, de 2005, A Ecologia de Marx, encontra-se interessante citação das Collected Works de Marx e Engels: “Não nos gabemos ... em demasia por conta das nossas vitórias humanas sobre a natureza. Pois para cada vitória dessas a natureza se vinga de nós ... a cada passo somos lembrados de que nós absolutamente não governamos a natureza ... mas que nós, como a carne, o sangue e o cérebro, pertencemos à natureza e existimos no seu meio”. Conclusão de Marx e Engels: o domínio que temos sobre o mundo natural reside no fato de estarmos em vantagem com respeito “a todas as demais criaturas por podermos aprender as suas leis e aplicá-las corretamente”. Palavras surpreendentes para mim que nunca havia encontrado em Karl Marx uma visão ecologista. Assim, o marxismo possui um laço histórico com a percepção mais atual das ciências da natureza. Percepção essa que se mostrou mais uma vez, entre os dias 13 e 18 do corrente, durante a 60ª Reunião Anual da SBPC, na Unicamp (Campinas, SP), de que participei.

Sobre tal percepção, por exemplo, a palestra do prof. Wilson de Figueiredo Jardim, do Instituto de Química da Unicamp, foi muito elucidativa. Apoiada na Segunda Lei da Termodinâmica, a da entropia, o prof. Jardim mostrou como o mundo está mergulhado numa situação de insustentabilidade ambiental. Ou seja, como nenhum processo é totalmente reversível, em todos existe uma perda. A lei básica da natureza é a do declínio, do desgaste: tudo decai, enferruja, desmancha-se. Tal tendência é acelerada pelos processos humanos que buscam queimar etapas, acelerar o crescimento, obter de forma ansiosa aquilo que a natureza oferece apenas em doses comedidas. O resultado é a constatação de que, sendo o planeta finito e não-crescente, todo o esforço de dele extrair recursos a um ritmo frenético, no marco de um modelo de desenvolvimento sem nada que o contenha, está levando o mundo ao caos. Somem-se a isso nossa ignorância dos processos naturais (quem sabe como funciona efetivamente o sistema do clima?), as enormes incertezas sobre o que pode acontecer (como seria a Terra sem abelhas?), os interesses em jogo e a dificuldade de comparar valores além dos econômicos (como o valor de uma paisagem ou o valor de uma vida feliz). O balanço final é que se faz necessário aquilo que o físico Carlos Nobre, do Inpe, também na reunião da SBPC, chama de uma “revolução ética”. Uma revolução que chame todos à responsabilidade e nos faça moderar o ímpeto com que se destrói a natureza no Brasil e no mundo.

A esse propósito, vale lembrar que são inúmeras as ameaças ambientais que pairam sobre nós. Uma delas, pouco conhecida, mas terrível, é a do mal que está exterminando abelhas no mundo. Trata-se da chamada “desordem do colapso de colméias”, provocada por desequilíbrios ecológicos como os trazidos por agrotóxicos. Como vetores indispensáveis da polinização de muitas plantas, as abelhas não podem ser descartadas. Mas é o que está acontecendo. A conseqüência é uma séria crise agrícola em gestação. A ponto de, na província de Sichuan (China), os agricultores já estarem fazendo polinização empregando mão-de-obra humana. Uma loucura. Outra ameaça: a de muitos invertebrados, como os escaravelhos (rola-bostas), desaparecerem – também por fatores ambientais. Esses insetos alimentam-se de excrementos de mamíferos herbívoros, constituindo elo fundamental da cadeia alimentar da natureza. Sua contribuição para a decomposição de matéria orgânica é inigualável. Mas o delírio do crescimento insustentável da economia causa aí mais um problema ameaçador.

Da série: querida acho que destruí o mundo! Capítulo 2

Paul Krugman é um economista extremamente preocupado com os maus resultados da teoria econômica, mas como a grande maioria, ao invés de enxergar nesses resultados indícios de uma teoria falsa, de um modelo fracassado, ele prega messianicamente a necessidade de dar mais do remédio amargo que está colocando o paciente na direção da morte. O remédio amargo é o crescimento econômico, que não é a solução, mas o problema. Basta lembrar que o setor imobiliário dos Estados Unidos aumentou o número de casas de 1.000.000 em 1900 para 190.000.000 no ano 2000 e, pasmem, o território do país ficou constante. Mas os economistas sempre vão achar uma solução (ou os governos...): demolir as casas abandonadas para reconstruí-las. A parcela marginalizada de milhões de pessoas nos Estados Unidos cada vez mais brasilinizado na miséria pouco importa, essa atividade de demolição é positiva para o PIB (contratar empresas e pessoas para demolir, lógico que as pessoas num trabalho ingrato...) e reconstruir (as construtoras agradecem). O impacto ambiental de demolir e reconstruir, na varinha mágica da teoria dos economistas é zero!!!

Por isso escrevi uma carta ainda sem resposta para esse economista. Ver abaixo a versão em inglês e em português (sem tempo para maiores correções de texto):

Dear Mr. Krugman,

I have three requests to you.

First one, I would like you to prove that economic growth, like US did, it is possible to be done for all world nations without creating a planetary collapse. It seems to me that US and advanced nations progress was planetary possible just because they did this alone. And after advanced nations got their local environmental collapse, they started to export to other places of the world through global commerce at a null cost. I would like to see what is going to happen to the planet if the BRICs try to catch up. I also see that in economic theory, the role of natural resources is until today absolutely dismissed. If it is so irrelevant, why US do not stop importing them? And why US do not stop doing wars for them? Economists only think about tangible natural resources, they even care about natural non-irreproducible services, like polinization. This are some points I would like you to use in your response. In sum, my question is: infinite economic growth is planetary possible, without putting humankind in the risk of its own extinction (considering that we already created the biggest life extinction of the last 65 millions of years)?

Second, I am not convinced that job creation and social benefits are a direct result from economic growth, I think they are just tautological results. If economy growth accelerates, job will be there; otherwise, if growth decelerates, say good bye to the jobs. Wealth concentration is at the records mainly in advanced nations. Moreover, I am not sure if current economic statistics, like GDP and unemployment rates capture the real human situation at work (if they are happy, if they are free, if they are learning, if they have plan B instead of being scared of being fired, etc.). Nordhan University Social Health index and other studies showed very different results, very bad ones. That is very important, because the planet devastation is justified by social benefits created by the eternal economic growth.

Last, not the least, do you think we need Nature?

Tks in advance for your attention, I will be glad to see your thoughts about these questions.

Best wishes,


Hugo Penteado from Brazil, where during the last 13 years (FHC and Lula mandates) Amazon forest destruction accelerated 3.000% and we are just copying the same economic model from US (that destroyed 99% of its natural forests) and Europe (99,7%).

Prezado Sr. Krugman,

Eu tenho três solicitações para você.

Primeiro, eu gostaria que você provasse que o crescimento econômico, igual ao dos Estados Unidos, é possível para todas as nações do mundo sem provocar um colapso planetário. Tudo indica que o progresso dos Estados Unidos e das nações desenvolvidas só foi planetariamente possível porque eles fizeram isso sozinhos. Depois que os países ricos atingiram seu colapso ambiental local, eles começaram a exportá-lo para outros lugares do mundo através do comércio gloabal a custo zero. Eu gostaria de antecipar o que vai acontecer ao planeta se os BRICs (Brasil, Rússia, Índia e China) tentarem fazer o mesmo. Eu também percebi que na teoria econômica o papel dos recursos naturais é até os dias de hoje completamente ignorado. Se é tão irrelevante, porque os Estados Unidos não páram de importá-los? E porque os Estados Unidos não param de fazer guerra por eles? Economistas só pensam em recursos naturais na sua tangibilidade, eles nem se preocupam em analisar os serviços naturais irreproduzíveis, como a polinização natural. Esses são alguns pontos que eu gostaria que você usasse em sua resposta. Em suma, minha questão é: crescimento econômico infinito é planetariamente possível, sem colocar a humanidade no risco da sua própria extinção (considerando que já criamos a maior extinção da vida dos últimos 65 milhões de anos)?

Segundo, eu não estou convencido que criação de empregos e benefícios sociais são um resultado direto do crescimento econômico, eu acho que são resultados tautológicos. Se crescimento econômico se acelera, os empregos estarão lá; se o crescimento desacelera, diga adeus aos empregos. Concentração de riqueza é recorde principalmente nas nações desenvolvidas. Acima de tudo, eu não estou tão seguro se as estatísticas econômicas convencionais, como PIB e taxa de desemprego, capturam a situação humana real no trabalho (se eles são felizes, se eles são livres, se eles estão aprendendo, se eles têm um plano B, ao invés de recearem uma demissão, etc.). O Índice de Saúde Social do Nordhan University e outros estudos mostram resultados muito diferentes, muito ruins. Isso é muito importante, porque a devastação planetária é justificada pelos benefícios sociais criados pelo crescimento econômico eterno.

Último, mas não menos importante, você acha que nós precisamos da natureza?

Obrigado antecipadamente pela sua atenção, ficarei feliz em ver seus pensamentos sobre essas questões.

Cordiais saudações,
Hugo Penteado do Brasil, onde durante os últimos 13 anos (governos FHC e Lula), a destruição da floresta Amazônica acelerou 3.000% e nós estamos apenas copiando o mesmo modelo econômico dos Estados Unidos (que destruíu 99% das suas florestas naturais) e da Europa (99,7%).

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Da série: querida, acho que destruí o mundo! Capítulo 1

Biocombustíveis, energia nuclear, extração de petróleo nas reservas de vida selvagem do Alaska, na Amazônia e agora no Ártico: no modelo atual o problema nunca é nem será o excesso de demanda, o desperdício e a ineficiência e sim falta de produção, construção, investimentos... - com isso estamos contratando a nossa extinção.

Essa é uma carta em inglês que escrevi para o editor chefe da Bloomberg em Nova Iorque. Abaixo vai a tradução.
Dear Mr. Cox,

There is no line in your article mentioning the biggest challenge that humankind is facing with the fossil fuel being continously burned in our tiny atmosphere. It is really possible that some people can disbelieve global warming, but that is undeniable: fossil fuels and other materials were cumulated in the crust during billions of years and that was the reason why life was possible in this planet. When we extract materials from the crust, like oil, we are introducing materials that can not be naturally recycled and it is a definite pollution and threat.

Those that do not believe in global warming, will find hard to deny the bad air we breathe in the biggest cities of the world. These anti-natural processes are spreaded not only in energy area, but in all economic sectors, because we forgot that we are an animal species and totally nature dependent. We also forgot that the countries territories are finite and that ecological services, that are irreproducible, are more finite than the tangible space. Oil is a problem. Growing demand is a problem. Economic growth that is not delivering social benefits mainly in the advanced nations is also a problem. Economic theory is false and the scientists know this very well since 1920. Economists assumed that the economic system is neutral to Nature and that Nature (or the planet with all natural services) are inexhaustible and infinite for growing and bigger productions and populations. This is our sin.

The only way US became so rich without causing a planet collapse, was because it did alone. When all the countries are trying to catch up, we are going to face collapses or wars. And, the only way US and other rich nations were able to keep their progress was importing natural resources and services through the global commerce. After reaching their local environmental collapses, the advanced nations started to export them to the poor countries, creating for the first time ever the risk of global collapse for the entire world. Without a change in our mindset and theories, we are lost. Anyway, I am very tired of seeing articles about new oil discoveries without even a word about what this means for humankind, that is, the risk of our own extinction.

It is the same to say that we are not happy in putting all forms of life in the biggest extinction process of the last 65 millions of years. We need to extend this extinction to us! Just a counterview for you to think, forgive me the intromission. I have reasons to be worried, during the last 13 years of Fernando Henrique Cardoso and Luis Inacio Lula da Silva mandates, using official data, Amazon forest destrucion increased 3.000% and during this short period we got 34% of cumulated destruction since 1500. We are just copyying US (that destroyed 99% of its natural forests) and Europe (that destroyed 99.7% of its natural forests). We are just copying the same wrong economic model based in false economic theories, that is the reason why US is in a mess with the housing sector: economists do not look to inventories, only to flows. Why the hell they should think about inventories if the environment is assumed inexhaustible? In 1900 US had 1.000.000 houses, in 2000 190.000.000 houses, the territory is the same, because is finite. One day someone will receive a nobel prize just to remember that country territories are finite...
Best wishes, Hugo from Brazil
Tradução:
Prezado Sr. Cox,

Não há nenhuma linha em seu artigo mencionando o maior desafio que a humanidade está enfrentando com a queima contínua de combustíveis fósseis na nossa fina atmosfera. É realmente possível que algumas pessoas não acreditem no aquecimento glboal, mas isso é inegável: combustíveis fósseis e outros materiais foram acumulados na crosta terrestre durante bilhões de anos e essa foi uma das razões pela qual a vida foi possível nesse planeta. Quando extraímos materiais da crosta, como o petróleo, introduzímos materiais que não podem ser naturalmente reciclados e isso é uma poluição definitiva e uma ameaça.

Aqueles que não acreditam no aquecimento global, acharão difícil negar o péssimo ar que nós respiramos nas grandes cidades. Esses processos anti-naturais estão presentes não só na área energética, mas em todos os setores econômicos, porque nós esquecemos que somos uma espécie animal totalmente dependente da natureza. Nós também esquecemos que o território dos países é finito e que os serviços ecológicos, que são irreproduzíveis, são mais finitos ainda que o espaço tangível. Petróleo é um problema. Demanda crescente é um problema. Crescimento econômico que não está entregando benefícios sociais principalmente nos países desenvolvidos é também um problema. A teoria econômica é falsa e os cientistas sabem isso muito bem desde 1920. Os economistas assumiram que o sistema econômico é neutro para o meio ambiente e que a Natureza (ou o planeta com seus serviços naturais) são inesgotáveis e infinitos para atender crescentes e maiores produções e populações. Esse é nosso pecado.

A única forma pela qual Estados Unidos tornou-se tão rico sem causar um colapso planetário foi porque ele fez isso sozinho. Quando todos os países vierem atrás, nós iremos enfrentar colapos ou guerras. E, o único motivo pelo qual Estados Unidos e outros países ricos foram capazes de manter seu progresso foi importando recursos e serviços naturais através do comércio global. Quando eles atingiram seu próprio colapso local, eles começaram a exportá-lo para os países pobres, criando pela primeira vez na história o risco de colapso global. Sem um mudança no nosso modelo mental e teorias, nós estamos perdidos. De qualquer forma, eu estou muito cansado de ver artigos comemorando novas descobertas de petróleo, sem mesmo uma palavra sobre o que isso significa para a humanidade, que é o risco da nossa própria extinção.

É o mesmo que dizer que nós não estamos felizes em ter colocado todas as formas de vida na maior processo de extinção dos últimos 65 milhões de anos. Nós precisamos estender essa extinção para nós. Isso é apenas uma visão contrária para você pensar, perdoe-me a intromissão. Eu tenho razões para estar preocupado, durante os últimos 13 anos dos governos do Fernando Henrique Cardoso e do Luís Inácio Lula da Silva, usando dados oficiais, a destruição da floresta Amazônica aumentou 3000% e durante esse curto período foi feito 34% da destruição total acumulada desde 1500. Nós só estamos copiando Estados Unidos (que destruiu 99% das suas florestas naturais) e a Europa(que destruiu 99,7%). Nós só estamos copiando o mesmo modelo econômico errado, baseado em teorias econômicas falsas e essa é a razão porque Estados Unidos está nessa confusão com o setor imobiliário: economistas não olham para estoques, só para fluxos. Porque diabos eles deveriam olhar para os estoques, se o meio ambiente é assumido inesgotável? Em 1900 Estados Unidos tinham 1.000.000 de moradias, em 2000 190.000.000. O território é o mesmo, porque é finito. Um dia alguém irá receber o prêmio Nobel apenas por lembrar que o território dos países é finito.

Atenciosamente,
Hugo Penteado

terça-feira, 22 de julho de 2008

Petição para ser assinada

Petição: Subscreva a Petição em Discordância à Fragmentação das MONTANHAS Sao Lourencinho TOPO DA SERRA DO MAR+ Suas Cabeceiras de DRENAGEM

Acho que todos devem assinar. Não conseguimos salvar a APA BORORÉ do megalomaníaco RODOANEL de São Paulo, que vai dividir em dois com ruído e poluição e estradas o pouco que sobrou de natureza de São Paulo na nossa região de mananciais, onde a ausência de Estado também permitiu uma ocupação urbana desordenada e que já ameaça os recursos hídricos da nossa cidade.

Falta de planejamento e cegueira total, tudo isso alimentado pela nossa ignorância galopante...
Essa assinatura é válida, por ser feito no serviço do Google de petições on line possuem validade jurídica. NUNCA assinem petições em email, nem repassem emails que dizem dar 1 centavo para cada email enviado para crianças com problemas de saúde, porque isso não existe.

Já estamos com 300 assinaturas on line ... Veja a listagem das entidades que apoiam.
Para incluir sua entidade clique aqui.

Nosso presidente Lula e nossas adversidades

Em tempo, Lula diz que a Amazônia não é um santuário e ele tem razão. Não é a Amazônia que é um santuário, mas o planeta inteiro, o espaço inteiro que nos foi dado. A Amazônia não é um caso geral de problema ambiental, mas particular. Assim como o aquecimento global não é "o" problema ambiental, mas um dos problemas.

Quando vejo o G8 e outros cientistas falando em tecnologias para recapturar o carbono, fico de cabelo em pé. Em primeiro lugar, caros leitores, vamos entender o que é emissão de carbono: é um dos vários processos anti-naturais que o sistema econômico-humano criou ao transformar o planeta finito numa lixeira conosco dentro - e vivos o que é muito pior. Para ter uma noção até onde vai a ignorância dos nossos governantes e das suas políticas, esse carbono não estava presente no planeta em centenas de milhões de anos, porque durante um processo geológico de billhões de anos materiais foram depositados na crosta terrestre e não fazem parte de nenhum dos processos de regeneração da natureza. Por isso, quando introduzimos carbono na atmosfera (e outras coisas, porque como disse, esse é apenas um dos processos antinaturais que criamos), estamos atrapalhando a natureza no seu trabalho de manter as condições que sustentam a vida desse planeta, incluindo a nossa, porque nós não somos deuses, somos uma espécie animal como outra qualquer, totalmente vulnerável.

Eu fico horrorizado, portanto, quando ouço nosso presidente dizer que os amazonenses precisam de carro, televisão e celular, não porque eles não merecem, mas porque esses produtos precisam ser limitados, porque seu ciclo é antinatural, porque não é solução de vida, bem estar e felicidade para ninguém, exceto para quem anda de helicóptero sobrevoando o caos urbano ou respira em condições satisfatórias longe dos 300 gramas de poluição que cada cidadão dessa cidade recebe diariamente. Moro em São Paulo desde 1984 e praticamente no mesmo endereço perto da Avenida Paulista. Hoje a deterioração do ar, da cidade, da urbanização e da sociedade são chocantes. Eu mal consigo respirar quando caminho à pé da minha casa por cinco quadras até o banco. Isso é o resultado da idéia falsa que precisamos de carro, celular e televisão.

O nível de inconsciência e ignorância das pessoas para deter ou mudar as decisões do governantes é limitadíssimo pela falta de liberdade que as condições de trabalho precárias do nosso sistema atual criaram. No sistema econômico atual a liberdade de cada um é determinada por dois fatores: coragem e conhecimento e renda. A renda é a mais estringente das duas, mas coragem não. A liberdade é diretamente proporcional à renda, mas podemos mudar essa regra com imaginação. E não devemos pensar que eles são nossos inimigos, mas devemos pensar em como fazer para nossa sociedade, incluindo nossos governos, nossas empresas, irá construir um sistema econômico realmente sustentável, que preserve nosso equilíbrio, com o planeta, com as pessoas e com as nações.

Será que preciso dizer muito sobre as coisas horrendas que somos obrigados a assistir diariamente para concluir que a visão dos governos e dos economistas é parte do problema e que parecem que eles preferem que o problema continue existindo, para que eles, com suas soluções falsas e mirabolantes também continuem existindo? O vício do problema lembra muito a fábula do rinoceronte de Monteiro Lobato: numa determinada cidade fugiu um rinoceronte e imediatamente foi criado o Conselho de Desenvolvimento Econômico e Social para recapturar o bicho. A única finalidade desse conselho era jamais achar o bicho, para não perder a necessidade de continuar existindo.

É para isso que serve nosso sistema, para aumentar os problemas e justificar a existência de pessoas iluminadas e salvadoras que supostamente irão resolver problemas que cabe a cada um resolver, através da solidariedade, conhecimento, busca de liberdade e conscientização. Essa sociedade de consumo desenfreado e de crescimento econômico e populacional não tem futuro algum e irá perecer. Nas palavras de Leonardo Boff, ou mudarmos, ou perecemos.

Termino com um comentário do Ricardo Peres: Se depender desse sistema atual nós vamos acabar dividindo o território terrestre em dois: metade para pastos de gado e metade para estacionamentos de carro, aliás, análogos estruturais da doença letal chamada falta de imaginação.

Hugo Penteado

Falar e Fazer (Walking the Talk) – Junho, 2008

Por Ricardo Peres (*)
Com a explosão dos temas ligados à sustentabilidade na mídia global, a atenção do mundo inteiro tem convergido nas questões ecológicas e preocupações socioambientais. Em particular, no Brasil, país que ainda retém 55% de sua cobertura florestal (SIVAM) e permanece o campeão mundial em biodiversidade, a consciência ambiental da população tem crescido significativamente desde a Conferência Eco 92 no Rio de Janeiro, hoje se distribuindo homogeneamente em todos os grupos populacionais, com destaque aos grupos que apresentam maior escolaridade, associada à maior renda e à residência em cidades.

Conceitos como biodiversidade, transgênicos, produtos orgânicos, elos biológicos e outros, entraram no repertório da população, a qual também percebe que só através das grandes mudanças de hábitos de consumo e comportamento será possível conservar o meio ambiente. O crescimento da consciência, no entanto, não tem sido acompanhado de mudanças expressivas de hábitos e atitudes. Se por um lado a preocupação com os problemas ambientais e a capacidade de identificá-los crescem em todos os grupos populacionais, por outro lado as soluções residem numa esfera que está além do mero reconhecimento de problemas. Em suma, existe um gap entre informação e ação na população brasileira.

A dissonância entre “falar e fazer” é sabidamente a raiz de inumeráveis erros em nossa civilização ocidental, representando o ponto fraco de igrejas, países, partidos políticos, indústrias e pessoas; uma raiz que brota instituições com personalidades fragmentadas, dessa forma criando conflitos internos e afetando tanto a auto-estima de uns como a credibilidade de outros. Em última análise, a dicotomia entre palavras a ações tende a gerar um “imposto de desconfiança” nas relações sociais que, como todo imposto, tem como seu destino final os ombros da coletividade.

Um estudo recente* sobre a percepção do consumidor brasileiro mostrou que existe um crescente ceticismo do consumidor em relação à concretização das ações das empresas, o que sinaliza a desconfiança do consumidor de que não são as ações, mas sim o marketing, que serve de motor nas campanhas de comunicação de Responsabilidade Social das Empresas (RSE). Supostamente, as empresas não comunicam suas ações com honestidade, percepção que levou ao desengajamento do consumidor, que hoje premia e pune as empresas menos do que fazia no passado (39% em 2000 versus 24% em 2007).

De acordo com outro estudo**, desta vez sobre a consciência ambiental dos brasileiros, 54% dos entrevistados discordam totalmente com a afirmação de que “O conforto que o progresso traz para as pessoas é mais importante do que preservar a natureza”, e 59% disseram não à pergunta, “Você estaria disposto a conviver com mais poluição se isso trouxesse mais emprego?”. Ainda, quando os diferentes grupos e instituições sociais na defesa do meio ambiente são avaliados, a percepção é positiva com relação às organizações ambientalistas (Greenpeace, WWF, etc.) e piora no caso dos empresários e do poder público. O grupo das organizações ambientalistas recebeu uma avaliação positiva de 65% dos entrevistados, ocupando o primeiro lugar, enquanto que o empresariado recebeu uma avaliação positiva de apenas 11%, lhe garantindo o último lugar entre os 10 grupos avaliados pela população.

É natural que esses resultados causem certa ansiedade na comunidade empresarial brasileira, particularmente entre aquelas entidades que já injetaram, em conjunto, bilhões de reais em upgrades de seu capital produtivo, novas metodologias e pesquisa (R&D). Afinal, não parece justo que após tanto investimento a resposta do consumidor seja resumida a mais desconfiança e menos engajamento. Portanto, muitas perguntas – algumas bastante arriscadas – começam a emergir no meio empresarial, entre as quais: Será que nós estamos gastando o dinheiro de forma correta? Ou ainda: Será que essa percepção negativa das práticas socioambientais é um reflexo da atitude do próprio consumidor com relação a si mesmo? Será este o teto da capacidade do consumidor de entender o valor que o empresário está criando? Trata-se, claro, de interrogações merecedoras da atenção normalmente concedida às prioridades, já que a percepção do consumidor é, por definição, uma prioridade em qualquer contexto de mercado.

Observadores acreditam que a solução reside em produzir uma comunicação que ajude o consumidor a discernir entre a empresa mocinho e a empresa bandido, dessa forma sensibilizando e mobilizando o consumidor a valorizar as práticas dos mocinhos. À primeira vista, esta parece ser uma estratégia sensata para abordar a questão. Porém, resta saber se “produzir comunicação visando sensibilizar e mobilizar o consumidor” representa uma iniciativa viável num universo de consumidores cada vez mais autônomos, críticos e produtores de informação, e cujas expectativas são formadas em rede.

Sendo que os meios de comunicação determinam a padronização da percepção e do subseqüente comportamento público, tanto com relação à arena política quanto ao setor produtivo da sociedade, seria necessário compreender a dinâmica dessa percepção operando em parceria com os novos meios de comunicação digitalizados, que hoje contam com a Internet: Um portal de comunicação inerentemente livre e democrático agindo na imaginação e bordando a percepção de todo o mundo, inclusive impactando as atitudes e o conteúdo da mass media, o que tem muitas vezes surpreendido os dois primeiros setores da sociedade, historicamente acostumados a tecer a opinião pública a partir do controle sobre a mídia tradicional (hegemônica).

Ao final de uma recente reunião com a diretoria de uma empresa nacional de energia que procurava soluções para uma campanha de comunicação de RSE, um diretor amigo me dizia, “Gastamos milhões com os caras feras da publicidade e não conseguimos atrair a atenção das pessoas...”. Longe de representar um caso isolado, me parece que esta e muitas outras experiências semelhantes podem ser evitadas se a estratégia levar em consideração que o computador pessoal, sendo o mediador da comunicação em rede, altera a potencialidade da comunicação e a articulação das percepções de maneira radical.

Conforme estabelecido por estudiosos como Yochai Benkler, Sérgio Amadeu da Silveira, Nicholas Negroponte e outros, a Internet é um meio auto-regulável devido a sua natureza participativa e acessível (a comunidade de Heliópolis já conta com 38 Lan Houses em pleno funcionamento). Em todo nosso país, já são 40 milhões de brasileiros com acesso à banda larga, representando os maiores consumidores individuais de Internet do planeta – na frente da França e dos EUA – em contato direto e se organizando em rede. Resumindo, a natureza multiplicadora da Internet, associada à sua velocidade e ubiqüidade, determina o poder de “organizar” e não de “formar” a opinião pública.

De fato, o poder organizacional da Internet é assustador. A capacidade de processar e divulgar conteúdo para o compartilhamento de centenas, milhares e até milhões de pessoas, transforma o internauta numa retransmissora. E são 40 milhões de retransmissoras processando e divulgando volumes enormes de conteúdo e definindo tendências. Dois anúncios de uma grande companhia nacional foram recentemente retirados do ar pelo Conar por divulgarem uma idéia falsa de que a companhia tem contribuído para a qualidade ambiental e o desenvolvimento sustentável do país: um dos produtos da empresa está na lista dos mais poluentes do mundo e não segue resolução do Conama. Também recentemente, uma empresa de produtos que prometem beleza, mas geram enormes áreas queimadas e desmatadas para a produção de insumos, foi pressionada a mudar o fornecedor de uma de suas principais matérias-primas, decisão que, aliás, foi muito bem vista pela comunidade de ambientalistas. É provavelmente dispensável dizer que ambos os casos acima foram resultados de campanhas geradas e organizadas na Internet... .

O consumidor brasileiro se torna mais esclarecido a cada dia e, como mostram os estudos, mais bem informado sobre as questões afetando o seu meio ambiente, seja a Floresta Amazônica ou o bairro onde mora com sua família. Como, então, comunicar com credibilidade num universo onde o seu conteúdo é submetido ao tratamento individual do público que, além de desconfiado, decide se, quando e onde quer lidar com você? Como elaborar um relacionamento de confiança entre a indústria e um consumidor que despertou para as duas faces do crescimento econômico e já começa a correlacionar progresso com poluição? Enfim, como mobilizar um consumidor capaz de fazer um levantamento do histórico ambiental de qualquer grande empresa em 15 minutos, organizar opiniões coletivamente e compartilhar experiências de consumo com toda uma comunidade?

Essa situação coloca um desafio perante o empresariado, demandando uma atitude de liderança com um denominador comum de ações que precisa superar, em muito, aquilo que tem sido feito. De qualquer forma, uma coisa é certa: os “mocinhos” têm pouco com o quê se preocupar, pois se existe uma coisa que fascina todo e qualquer internauta, é a transparência que caracteriza a comunicação em rede e, mais cedo do que tarde, as ações que são divulgadas acabam sendo percebidas, processadas e reconhecidas pelo que são: nem mais e nem menos.

Quanto aos que divulgam informações sem o embasamento de ações verificáveis, sejam pessoas, governos ou empresas, talvez seja produtivo considerar as palavras do presidente Lula, registradas no final de Maio passado, sobre a dissonância entre o “falar e o fazer” dos países de primeiro mundo e suas florestas: De vez em quando eu vejo presidentes de países, vejo cientistas de países darem palpite, e aí você olha os países deles, está careca, não tem nada. E ficam dando palpite no país dos outros. Então, o seguinte: respeito é uma coisa que a gente gosta de dar e gosta de receber.

O século 21 promete um cenário extremamente desafiador para as administrações públicas e privadas que pretendem obter o reconhecimento público de ações socioambientais a medida em que esse público adquire cada vez mais conhecimento sobre as causas reais da devastação ambiental. Em breve, não serão as noções ambientais básicas, como “elos biológicos” e “aquecimento global”, que estarão mobilizando a opinião pública. Conceitos bem mais profundos como a economia ecológica, por exemplo, devem emergir na consciência pública e colocar em cheque as crenças e práticas tradicionalmente consagradas, inclusive a própria idéia de crescimento que embasa todo o nosso arcabouço neoliberal de produção e desenvolvimento. O debate deve se intensificar com o tempo, dinamizando as percepções e tornando a sociedade civil cada vez mais exigente. Nesse contexto, recomenda-se falar a verdade. Sempre.



* Responsabilidade Social das Empresas – Percepção do Consumidor Brasileiro, (2006 – 2007). Akatú – Ethos – Market Analysis

** O que os brasileiros pensam sobre a biodiversidade, Estudo Longitudinal (1992 – 2006). Vox Populi – IBOPE – ISER.

(*) Ricardo Peres é ambientalista, músico e diretor executivo da bentivimídia ltda.

domingo, 13 de julho de 2008

O mundo deveria ser só assim...

Se para sobreviver de forma mais sustentável, eu tivesse que matar uma galinha, eu mataria, apesar de ser vegetariano. Falo isso por causa do artigo abaixo, que foi encaminhado por Luís Donadio, cuja lista de artigos que me envia são sempre muito interessantes. A postagem anterior, sobre a ONU, também veio de um de seus artigos, ele está trabalhando em dobradinha comigo sem saber. Mas voltando, mataria a galinha desde que fosse rápido para ela e antes de comer eu rezaria por ela, que deu a vida por mim, com o maior respeito que um ser vivo pode ter pelo outro. Seria uma atitude extrema, eu tentaria claro evitar. Mas comprar um frango da indústria, que é tratado cruelmente, que é entupido de hormônios que causam todo tipo de câncer e o de mama principalmente nas mulheres não. Esse frango também é carregado de antibióticos tudo porque a indústria faz os pobres frangos atingirem a idade do corte em tempo recorde só para aumentar os lucros. Esses eu jamais compraria, nesse caso optaria em morrer de fome. Ou optaria em ser vegetariano, uma das principais razões por ser vegetariano e a crueldade da produção de carne. A segunda, por ser ecologicamente devastador, planetariamente inviável comer carne, principalmente depois que deixamos a população humana atingir 7 bilhões de pessoas quase e já estamos produzindo alimentos à custa de atrasos ecológicos e resiliência da natureza e é praticamente impossível escaparmos hoje de um fome mundial por conta dessa cegueira de um sistema que primeiro cria os problemas para depois ir atrás das soluções. Para que acabar com os problemas, como vamos então justificar a existência de tantos políticos e suas promessas? Como vamos justificar tantas atividades inúteis que poderiam ser evitadas, como por exemplo despoluir e descontaminar o que foi poluído, ou desaquecer a Terra que foi aquecida?

Esse livro do artigo abaixo vale a pena dar uma olhada e comentar depois, aguardo comentários, eu estou adquirindo-o para a lista infinda de leituras que já tenh
o. O mundo deveria ser só assim, como os protagonistas do livro e do artigo abaixo viveram. Enfim, nós deixamos as empresas destruir nosso futuro. As indústrias alimentícias então, não são nada diferentes da indústria bélica. Nós temos hoje indústrias da destruição total da humanidade e da sobrevida da humanidade. Sobrevida, porque o planeta tem um limite para sustentar a vida, dada a entropia e isso é inexorável; a questão é como negociamos a exaustão da entropia com a Terra. Nem preciso dizer que nós negociamos para ser a única espécie animal da Terra que resolveu se aniquilar e aniquilar todos os demais seres vivos no prazo mais curto que qualquer outra espécie durou nos 4,5 bilhões de anos desse planeta, apenas para satisfazer os bushes, os lulas, os eikes batistas, os blairos maggis, os fhcs...

Esse é o tipo de desconstrução do sistema que iremos passar, por vontade própria ou por colapso, mas iremos passar. E só será vencedor quem decidir fazer parte dessa construção; quem não decidir irá desaparecer, por colapso:

11/07/2008 - 16h51

Família come só alimentos orgânicos para provar sustentabilidade

FLÁVIA GIANINI

Colaboração para a Folha de S.Paulo

Ela não protestou nua, nem fez greve de fome, nem abraçou árvores, mas conseguiu uma vitória considerável para qualquer ativista ecológico. Para provar a viabilidade da agricultura sustentável e a importância de pensar a alimentação politicamente, a escritora Bárbara Kingsolver e sua família viveram um ano só comendo alimentos orgânicos que produziam na própria fazenda ou trocavam com pequenos agricultores vizinhos.

A experiência hercúlea, narrada sem perder o bom humor, é contada no livro "O Mundo É o que Você Come" (ed. Nova Fronteira), que está sendo lançado no Brasil.

Formados em biologia, a autora e seu marido, Steven L. Hopp, sempre foram ligados ao campo e à natureza. O casal tentava ao máximo levar um estilo de vida natural e saudável com as duas filhas em Tucson, segunda maior cidade do Estado americano do Arizona. Eles moravam em um sítio, cultivavam legumes e passavam as férias na fazenda da família no interior da Virgínia. Mas dois anos de seca na região de clima árido geraram uma piora progressiva na qualidade de vida.

Assim, os antigos planos para uma vida rural ficaram mais atraentes a partir de 2004. "Bebíamos a água que as autoridades garantiam ser potável, mas elas desaconselhavam o uso nos aquários porque matavam os peixes", disse a filha mais velha do casal, Camille, 21, em entrevista por telefone à Folha. A estudante de biologia garante que a mudança foi compartilhada por todos. "Havia o plano de produzir alimentos próprios. Mas o Arizona era um deserto com poucas opções de culturas familiares viáveis."

A fuga do Arizona ensolarado era uma tentativa de alinhar a vida com a cadeia alimentar e abandonar o comportamento de "leitores de rótulos desconfiados". Mas a despedida da antiga vida passou longe do ecologicamente correto. Antes de encarar os cinco dias de carro até a Virgínia, eles pararam para abastecer o tanque de combustível e a bolsa com um pouco de "junk food".

Ao chegar à fazenda, o primeiro desafio foi definir o cardápio de acordo com as estações do ano. No desafio, exceções para óleo, azeite, vinagre e alguns grãos, de produção e processamento improvável naquela região dos EUA.

O planejamento e a experiência não evitaram os percalços. A perda das hortaliças com a chegada do frio foi só um dos problemas. "Deu medo de não ter o que comer no dia seguinte", conta a estudante. Criatividade era a solução. "Durante uma semana, a base do cardápio foi abóbora. Teve pão, torta, sopa e cozido. Até a sobremesa era de abóbora", lembra.

Matar os frangos que criaram desde pintinhos também não era fácil. "Conflitos morais eram inevitáveis no início, mas aprendemos a valorizar o consumo consciente e a importância desses animais na nossa alimentação durante o inverno", afirma Camille.

A jovem pretende se especializar em nutrição após concluir o curso de biologia. Se abater os frangos já era difícil, imagine perus de mais de 20 quilos. "Precisávamos estocar tudo o que fosse possível antes do inverno", diz. A família produzia artesanalmente salsichas, lingüiças e mussarela.

Receita possível

Todo o trabalho de subsistência era feito em grupo e as dificuldades deixavam as vitórias maiores. Camille se lembra da festa de aniversário de 50 anos da mãe. "Alimentamos mais de cem pessoas apenas com alimentos da região. O cardápio incluía entrada, prato principal e sobremesa", conta.

Ela e o pai participaram do livro. Cada um tem espaço próprio, onde abordam questões sobre política alimentar e produção orgânica. Camille, que durante o ano na fazenda entrou na universidade, fala sobre as dificuldades de manter seu estilo de vida comendo a comida do campus. Também é a responsável pelas receitas criadas, adaptadas ou testadas pela família no período. Ela garante que é possível alimentar crianças avessas a legumes com cookies de abobrinha.

Barbara escreve que, se o atual padrão de consumo gera desgaste ao ambiente, pequenas mudanças têm grandes resultados. "A comida na prateleira de um mercado americano percorreu uma distância maior do que a maioria das famílias percorre nas férias. Em média, 2.500 km. Se cada americano fizesse uma refeição por semana com alimentos locais, 1,1 milhão de barris de petróleo seriam economizados."

A escritora não economiza críticas ao "american way of life". O discurso político ácido, porém, tem argumentação sólida, baseada em dados sobre a cadeia de produção de alimentos. Guardadas as devidas proporções, as críticas servem aos padrões da maioria das grandes cidades.

Hoje, a fase radical passou. A família vive na fazenda, mas compra boa parte do que consome, desde que seja produzida de forma sustentável, de preferência orgânica. Entrar em contato com a terra, consumir alimentos de procedência conhecida, escolher de acordo com a estação e aproveitar ao máximo os recursos naturais: essa é a receita da família para não agredir o ambiente.

O Mundo É o que Você Come

Editora: Nova Fronteira

Site da família: www.animalvegetablemiracle.com





Um discurso que não pode ser esquecido...

Severn Suzuki, no ECO92, evento que até agora não conseguiu mudar uma vírgula sequer da rota suicida da humanidade, apenas porquê continuamos no consumo inconsciente, as empresas continuam perseguindo um lucro injustificável, gerando externalidades que são arcadas pelo nosso dinheiro, pelas gerações atuais e futuras.

Contradições do nosso sistema...

Hilário. Eu estou só esperando o colapso (todos possíveis: econômico, ambiental, social, guerras...) a qualquer momento. Não vejo nenhuma mudança de tendência em lugar algum, quando ando nas ruas só vejo pessoas carregando sacolas plásticas, tratando o planeta como lixo, penduradas em ônibus, ganhando 500,00 por mês e reféns dos grandes supermercados, das grandes empresas e de tudo aquilo que nossos governantes defendem com unhas e dentes... E a vida dos ricos com supéfluos, desperdícios, comida atirada aos aterros sanitários e luxos ao lado de quem não tem nem o básico?
Escuta, não é ONU, é ÔNUS (Organização das Nações dos United States), inglês com português mesmo, porque afinal aqui no BraZil não é mais "entrega à domicílio", é "delivery"; não é mais "liquidação" é "sale ou off", e por aí vai...
Podemos misturar tudo. Colonização assumida. Nas empresas, parte alimentícia é Perfexho e o papel higiênico é Clarkerly Timber. Chiquérrimo. Quanto mais nome difícil melhor; até o papel higiênico, que nós, no nosso atestado de incapacidade nacional, precisamos de serviços que venham de empresas estrangeiras. Maravilha. Enquanto isso demitimos milhões... O mesmo que eles conseguiram lá, que é total falta de empregos pela tecnologia das grandes grandes corporações, que a cada ano empregam cada vez menos gente e que agora eles precisam dos emergentes para ocupar seus espaços e aumentar os lucros. Lá vai Ray Anderson, o capitão da sustentabilidade, abrindo fábricas na China e na Índia... Ainda bem que é o capitão da sustentabilidade. Tenho certeza que essas novas fábricas criaram novos padrões de trabalho na Ásia, que fogem ao regime de escravidão forçada no qual o capitalismo ocidental se assentou para comprar barato hoje em dia... Pelo menos isso, fábricas de carpete com responsabilidade social na Ásia, isso sim é um pequeno passo, não o único, longe de ser suficiente, porque começa com a seguinte pergunta: cigarros, armas, carros e carpetes? São realmente necessários? Sustentabilidade significa distribuição, eficiência e se ater aquilo que é realmente necessário, porque não vamos revogar uma lei da física básica que é: tudo é matéria e energia e o ser humano não produz nem matéria nem energia e ambos são estoques limitados... Lavagem cerebral secular em todo mundo: vamos consumir tudo rapidamente e deixar o planeta delivered para as bactérias.
ÔNUS é a melhor descrição da ONU, que parece ser um anexo dos Estados Unidos.Basta lembrar que na época da guerra do Iraque, a segunda (que somando as duas, 1.000.000 de civis foram mortos por Bush pai e Bush filho) os Estados Unidos mandaram sair o chefe de inspeção - que era brasileiro - da ONU que tinha visões um pouco estranhas, como por exemplo, querer aplicar aos EUA as mesmas regras de inspeção que eles descumprem e que estavam obrigando o Iraque a cumprir... (três pontinhos mesmo, hoje estou de bom humor, não vou conseguir escrever muito...). E toda aquela palhaçada para justificar o ataque já feito ao Iraque e nenhuma sanção contra os Estados Unidos.

Só eles podem ter bombas nucleares para matar 1.000.000.000.000 - leia-se 1 trilhão de pessoas (do livro Crise final, de Erwin Laszlos, ele calculou quanto os Estados Unidos tinham de bombas para matar pessoas em 1985 e chegou na conta de 850.000.00.000 - leia-se 850 bilhões).

Nós somos mesmo a espécie mais inteligente da Terra, porque somos hoje só 7 bilhões quase, mas para ter certeza, precisamos de bombas o suficiente para matar 1 trilhão... e o quanto de natureza não foi usada para produzir essas bombas? Bobagem, a natureza é inesgotável e nós todos somos deuses...

E que venha o colapso, cada vez mais próximo... essa é minha mensagem desse domingo ensolarado... Porque a ganância dos Eikes Batistas, dos Blairos Maggis, dos Bushes, dos Lulas, dos FHCs continua regendo a orquestra.

O amor à vida, a mudança do modelo mental, a preocupação com os menos favorecidos, um bolsa família que viesse junto com um planejamento familiar para evitar que o problema de sobrepopulação num planeta finito não continue aumentando, nada disso está acontecendo. Somos deuses, os amazonenses precisam de carros (estradas, garagens, estacionamentos, ruas todas feitos com o NOSSO dinheiro para a indústria de automóveis poder inundar as cidades de carros inúteis), celulares, televisão, como diz Lula, como se isso fosse sinônimo de felicidade. Régua única: agora só é feliz quem tem carro, televisão e celular, vá correndo comprar o seu. Como é bom ter pessoas preocupadas com a gente...

A cada dia amanhecemos com muito mais gente, com muito mais coisas que nem podemos usar e com menos clima estável, com menos ar, com menos água, com menos florestas, com menos espécies animais e vegetais. O mais vai virar menos. O mais vai virar nosso fim. Parabéns a todos que perseguiram isso, principalmente os ricos e os governantes. Porque aí se trata de corpos sem alma, sem continuidade, porque a Justiça virá para todos, pode não vir na forma gilmarniana, mas virá na forma universal, disso não tenho a menor dúvida.


11/07/2008 - 17h10

Programa da ONU subsidia emissão de gases poluentes, diz jornal

da Efe, em Nova York

Um programa das Nações Unidas destinado a combater a mudança climática concedeu subsídios para a construção de centrais elétricas na Índia e na China que emitem gases responsáveis pelo aquecimento global. A informação foi publicada nesta sexta-feira pelo "The Wall Street Journal".

O jornal afirma que o programa outorgou ajudas a 13 centrais de gás natural, e estuda fazê-lo também com outras que consomem carvão mineral que, assim como o petróleo, produz dióxido de carbono.

Em conseqüência, os proprietários das centrais receberam milhões de dólares destinados a fomentar o desenvolvimento de energia solar, turbinas eólicas e outros métodos de produção de energia renovável.

Um dos projetos que podem receber assistência da ONU é uma central de carvão de US$ 4 bilhões que a empresa Tata Power deve construir no oeste da Índia, e que, quando entrar em funcionamento, será uma das maiores do mundo, indicou o diário.

A Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática (UNFCCC) criou este programa de subsídios, chamado Mecanismo de Desenvolvimento Limpo (CDM, na sigla em inglês), após a assinatura do Protocolo de Kyoto, em 1997, para apoiar iniciativas que combatam o aquecimento global, como a preservação de florestas e as energias renováveis.

Os programas CDM aprovados pela ONU permitem a obtenção de Certificados de Redução de Emissões (CER), que são negociáveis no mercado internacional com os países industrializados que devem cortar suas emissões de CO2.

Os responsáveis do CDM entrevistados pelo "The Wall Street Journal" justificam os subsídios às centrais com o argumento de que as novas usinas substituem as velhas centrais mais poluentes.

terça-feira, 8 de julho de 2008

Eterno debate inútil sobre aquecimento global ser falso ou verdadeiro

Por Hugo Penteado em 07/07/2008
Fonte: Eco-Finanças


Aquecimento global é grande parte teórico e uma menor parte evidência, incluindo algumas poucas previsões já confirmadas. Embora o aquecimento global possa ser negado ou ignorado, é muito difícil que o processo linear-infinito-degenerativo do sistema econômico-humano não tenha produzido problemas graves como esse ou outros, que até desconhecemos por conta dos atrasos ecológicos e da resiliência da natureza. Estamos numa situação na qual as conseqüências estão muito distantes das causas, por causa do funcionamento do planeta, um sistema muito complexo.
Se parte da história do aquecimento global é teórica - e inacessível, colocando qualquer pessoa que acredite nisso numa possível posição ingênua - as outras evidências do nosso sistema são visíveis e inegáveis, como por exemplo, a contaminação contínua do solo, ar e água, a extinção global de espécies animais e vegetais, a destruição de florestas, o esfacelamento dos serviços ecológicos básicos, etc. Acima de tudo, não se trata de um processo momentâneo, mas perene e submetido a crescimento exponencial eterno: a cada minuto perdemos 42 campos de futebol em florestas, um terço só no Brasil (não é só florestas que perdemos a cada minuto).
Esses processos são antítese de algum outro processo que precisa ser investigado e são meras conseqüências e embora os ingênuos não possam sequer pensar em entender os modelos das ciências do clima, é muito fácil pegar essas evidências e trazê-las para outro campo, como a economia, e tentar entendê-las sob esse prisma. Provavelmente é isso que os cientistas do clima esperam que façamos: eles entenderam o problema planetário e mostraram conclusões e riscos. A partir daí, os economistas têm um trabalho a ser feito: verificar como a economia teórica e prática contribuiu para gerar esse problema e descobrir suas causas. Uma teoria com mito mecanicista e tecnológico que trabalha com a hipótese que o planeta é inesgotável e que os processos econômicos são neutros para o meio ambiente seria o melhor ponto de partida. O mito do crescimento como salvação social seria outra área de pesquisa importante, porque o ataque ao planeta é justificado pela necessidade de acabar com os problemas sociais sempre crescentes que estamos vivendo. Seria demais esperar que os economistas obtivessem doutorado nas ciências do clima antes, ao invés de se debruçar sobre seu próprio conhecimento para levantar os erros econômicos que produziram esses problemas, a maior parte deles inegáveis para quem tiver um mínimo de bom senso e ética.
Nesse caso, as respostas ficariam mais claras: 1) aquecimento global não é o problema, mas um dos problemas, 2) aquecimento não é uma possível causa, mas a conseqüência, como muitas outras que não podemos ignorar e 3) o desastre socioambiental é uma antítese da economia. A economia pode enumerar as causas de problemas prováveis ou improváveis que a humanidade já enfrenta e enfrentará muito mais no futuro. Ciências do planeta e do clima mostram as conseqüências, a economia mostra as causas e essa abordagem unificada conseguiria produzir a ação necessária para evitar o colapso que se avizinha. Enumerar as causas não significa ter achado as soluções. Esse seria um outro passo, mas no seio da economia, a cartilha que é pregada por todos continua sendo parte do problema e não da solução. Alguns economistas até reconhecem isso, mas afirmam sem medo que quem descobriu o problema, deve achar a solução. Nada poderia ser mais antiético que isso.
Portanto, considero para nós economistas mais importante centrar a discussão nas causas, porque elas estão aí operando a todo vapor e sem mudança alguma na prática. É como se do lado de cá estivéssemos discutindo os sexos dos anjos e do lado de lá, a sociedade inteira estivesse como todo bom fumante, totalmente prazerosa indo na mesma direção de sempre, sem se preocupar com as conseqüências, que parecem muito distantes para todos.

* Hugo Penteado é autor do livro Ecoeconomia: uma nova abordagem (Ed. Lazuli, 2003)

Mitos da sustentabilidade, parte 2

Sustentabilidade significa desconstruir modelos mentais para construir outros

A entrevista com Filippo Cecilio teve uma segunda parte que pode ser lida aqui.

Mitos de sustentabilidade em uma entrevista

Fui entrevistado pelo jornalista Filippo Cecilio, da Eco-Finanças. Ele fez excelentes perguntas sobre temas tão em voga hoje. Foi uma excelente oportunidade para colocarmos nossas idéias.
A sociedade precisa se reinventar...
O modelo econômico e de desenvolvimento utilizado pela sociedade até os dias de hoje só nos levará a um único caminho: a destruição total de nossa espécie. È o que afirma o economista Hugo Penteado, autor do livro EcoEconomia: Uma Nova Abordagem (2003). "Sem uma mudança na teoria econômica tradicional, abandonando seus mitos, como por exemplo, o mito tecnológico que faz os economistas acreditarem que o planeta é inesgotável e que poderemos "construir" outro planeta se for necessário, não há como mudar a rota atual", diz penteado. Em entrevista exclusiva ao Eco-finanças, ele fala sobre as políticas globais de desenvolvimento, o papel da Amazônia nessa discussão e os erros econômicos conceituais que não permitem um uso sustentável dos recursos naturais.
A entrevista pode ser lida aqui.

terça-feira, 1 de julho de 2008

Crescimento econômico, consumo e meio ambiente

Por Ademar Ribeiro Romeiro*

Entre as pessoas sensíveis à problemática ambiental, é amplamente aceita a idéia de que é necessário mudar os hábitos de consumo, de modo a torná-los compatíveis com a preservação do meio ambiente. Essa mudança pode assumir, entretanto, graus distintos em termos de esforço de adaptação e/ou custo monetário, com impactos também distintos em termos da redução dos danos ambientais. Há mudanças que envolvem apenas custo monetário, como no caso da substituição de produtos: por exemplo, produtos não-degradáveis ou contaminados por outros, degradáveis ou não contaminados, mas mais caros. Outras podem até implicar numa redução do custo monetário, mas exigem mais trabalho doméstico de manipulação e disposição de produtos, como é o caso com a substituição de embalagens one way, por embalagens retornáveis. Há, ainda, aquelas mais "radicais" em termos de esforço pessoal, como no caso da troca do transporte individual pelo transporte público.

Para a maioria dessas pessoas, a generalização de um consumo ambientalmente responsável, juntamente com uma produção "limpa", seria a solução para o problema ambiental. A idéia de que o crescimento do consumo em si mesmo é um problema, independente deste ser ambientalmente correto ou não, é bem mais difícil de ser aceita, ou mesmo entendida. Consumir de modo ambientalmente correto é fundamental, mas não elimina o fato de que a Terra e sua capacidade de reciclagem não são infinitas. Mesmo que houvesse disponibilidade ilimitada de energia limpa (por exemplo, energia a partir da fusão nuclear), seu uso não poderia ser ilimitado devido à entropia gerada, desde a produção mesma da energia (o resfriamento dos reatores nucleares na França, por exemplo, utiliza um terço da água de superfície disponível), passando pelos resíduos gerados pelas atividades produtivas, até sua reciclagem final pelos ecossistemas. Esta constatação remete ao velho debate sobre crescimento zero, iniciado teoricamente há quase 40 anos atrás por Nicolas Georgescu-Roegen, em sua obra magna A lei da entropia e o processo econômico[1] e empiricamente pelo relatório do chamado Clube de Roma[2].

Em recente trabalho intitulado "As conseqüências morais do crescimento econômico", Benjamin Friedman, da Universidade de Harvard[3], faz uma excelente revisão histórica e teórica do crescimento econômico, para defender a idéia de que este tem que ser infinito, por ser uma condição necessária para a paz social e harmonia entre as nações. Não se trata aqui de defender o crescimento econômico apenas considerando a presente situação de desigualdade e pobreza entre as nações. Mas da idéia de que mesmo em nações altamente desenvolvidas o crescimento econômico será sempre necessário para a paz social. O problema de sustentabilidade, que decorre dessa perspectiva, é praticamente desconsiderado com o recurso da "varinha mágica" de progresso técnico, que tudo resolveria.

De fato, a forma como a economia está estruturada e as expectativas de consumo das pessoas tornam necessário esse processo casado de expansão da produção e de criação incessante de novas necessidades de consumo. A ausência de crescimento econômico provoca problemas mesmo em economias como a japonesa, com altíssima renda per capita e demografia estabilizada. Não há receitas prontas de políticas públicas para resolver esse impasse. O mais razoável, e democrático, seria um cenário em que progressivamente, pelo aumento da consciência ecológica, a população fosse mudando as proporções do conteúdo de sua "cesta de consumo": de bens materiais para bens imateriais que exigem muito pouco suporte material para seu usufruto (bens e serviços culturais, esportivos e de lazer).

Como reforço à consciência ecológica, há o questionamento mais geral da capacidade da nossa sociedade de consumo em satisfazer os anseios da população por uma vida mais feliz. Este é também um velho debate que começa, precisamente, quando o crescimento econômico dava mostras de que poderia resolver definitivamente os problemas de penúria material, que durante toda a história humana atormentou a grande maioria da população[4]. A questão que se colocava era se, a partir do momento em que as necessidades materiais para uma vida confortável fossem atingidas, não haveria outros objetivos a perseguir para uma vida feliz? Nos EUA, o questionamento da idéia de que "mais é sempre melhor" começou quando repetidos surveys (Gallup e National Opinion Research Center) mostraram que o crescimento da renda não foi acompanhado de um aumento da felicidade das pessoas tal como elas percebiam isto.

Os resultados dessas pesquisas foram analisados por Richard Easterlin, que constatou que havia uma correlação positiva, no mesmo período de tempo, entre o nível de renda e o grau de felicidade declarada, na medida em que se subia na escala de renda (ou seja, uma maior proporção de pessoas se declarava felizes nos extratos superiores de renda); entretanto, em séries temporais, essa correlação não aparecia. Embora o cidadão americano dos anos 2000 tivesse uma capacidade de consumo muito superior à de seu avô ou bisavô nos anos 1940, seu nível de felicidade não havia aumentado.

O primeiro caso não surpreende, na medida em que ter acesso a bens e serviços é sempre um motivo de alívio e satisfação, especialmente quando se considera a situação menos afortunada de outros. Já no segundo, o resultado é algo paradoxal (o "paradoxo de Easterlin"), mas pode ser explicado[5] por um conjunto de fatores psico-culturais. Um dos mais importantes seria o fato de que a satisfação que cada cidadão obtém, com o aumento de sua capacidade de consumo, é relativa à capacidade de consumo dos demais concidadãos; ou seja, se a renda aumenta para a sociedade como um todo, a percepção do aumento da capacidade de consumo se esvanece.

Outro fator apontado refere-se à teoria psicológica contemporânea, segundo a qual tanto animais como seres humanos encontram prazer na ação ou experiência nova, e não na rotina. Para os humanos, a aquisição de um novo bem pode produzir também esta sensação. O problema está, então, em que essa sensação desaparece com o uso rotineiro do bem adquirido. A implicação perturbadora dessa teoria é que ela diz que o nível de satisfação não depende (ou pelo menos não depende somente) do nível de renda, mas do seu crescimento. Tudo o mais constante, seria preciso crescer cada vez mais rápido para aumentar a felicidade ou manter pelo menos manter o crescimento para não reduzi-la.

Em resumo, a sustentabilidade a longo prazo depende de uma mudança profunda na dinâmica atual de produção e consumo. Será preciso que a sociedade de consumo, chamada por muitos de "civilização do ter", caminhe em direção a uma "civilização do ser", onde os fatores de estímulo e de emulação social estejam referidos não ao crescimento da capacidade de consumo, mas ao desenvolvimento de cada um em suas capacidades humanas.


* Ademar Ribeiro Romeiro é professor associado do Instituto de Economia da Unicamp.

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1 Georgescu-Roegen, N. (1971). The entropy law and the economic process. A Harvard Paperback.
2 Meadows, D. et al.(1974). The limits to growth: a report for the Club of Rome's project on the predicament of mankind.
3 Friedman, B.(2006). The moral consequences of economic growth. Harvard University Press.
4 John Stuart Mill foi um dos pioneiros neste tipo de reflexão. Para uma análise de sua contribuição ver Daly, H.(1996). Beyond growth. Boston: Beacon Press.
5 Para uma perspectiva mais ampla ver Romeiro, A. (2004). "Economia e Economia Política da Sustentabilidade", in: May,P. et al. Economia do meio ambiente. Rio de Janeiro: Editora Campus.

(Envolverde/ComCiência)

http://envolverde.ig.com.br/?materia=49146#

Receita do desastre planetário

Impressionante mesmo...

Impressionante como o óbvio é sumamente ignorado.
Impressionante como agora, no meio dessa crise total, temos uma elite de iluminados que querem mudar o mundo sem mudar a si mesmos.
Impressionante como as pessoas ainda não entenderam que o problema que estamos enfrentando não é de mérito pessoal algum, mas uma questão humanitária.
Impressionante ver como mesmo no meio do caos, da iminência do colapso, as pessoas continuam agarradas nas suas vaidades, nas suas pretensões de reconhecimento pessoal, no seu egoísmo.
Impressionante como os mentores da mudança falam uma linguagem que 6,5 bilhões de pessoas jamais entenderão.
Impressionante ver que mesmo nas tentativas de mudança, não há mudança alguma.
Impressionante como sobra conhecimento e falta imaginação, pois a imaginação é mais importante que o conhecimento.
Mas o mais impressionante de toda essa discussão é o quanto não somos corajososos, o quanto se fala e nada se faz, enquanto amanhecemos cada dia com menos natureza.
A cada dia perdemos 17.000 a 17.500 campos de futebol em florestas só da Amazônia. Ponha na conta a perda das florestas da Ásia, do Canadá, da África, o pouquíssimo que sobrou dos EEUU, o Cerrado. Ponha na conta outros processos contra o sistema planetário e tente pensar neles sem se arrepiar.
Enquanto os iluminados escrevem artigos maravilhosos, promovem debates científicos calorosos, o G8 se reúne na calada da noite para dizer que é melhor investir numa tecnologia que capture o carbono ao invés de ter uma matriz energética e tecnológica que não emita carbono.
Enquanto os iluminados ficam nos seus recantos maravilhosos, o G8 diz que a crise de alimentos e de energia será resolvida com mais produção e com mais eficiência. E com o etanol.
Enquanto Lula, FHC e Bush e outros líderes governamentais seguem aparentemente com o mesmo modelo mental e sem ter noção alguma do perigo, permanecemos nos nossos esconderijos discutindo o sexo dos anjos. Ficamos sem solução prática, sem propor uma aplicação na vida das pessoas e as nossas teorias seguem inúteis para o futuro da humanidade e tudo isso por pura vaidade pessoal.
Seguimos com a receita do desastre, resta-nos apenas esperar por ele.
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http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi2306200823.htm

São Paulo, segunda-feira, 23 de junho de 2008

ENTREVISTA DA 2ª - PAUL ROBERTS

Biocombustíveis trocam um problema por outro
Para especialista em energia, não faz sentido resolver o problema do petróleo, que é um recurso limitado, por terra, que é outro recurso limitado

NÃO BASTA substituir uma matriz por outra, mas diversificar. Não adianta resolver só do ponto de vista de oferta, trocando gasolina por álcool, mas também de distribuição, que é arcaica, e de demanda, que não pode continuar no nível atual. É o que defende o autor americano dos livros "The End Of Oil" ("O Fim do Petróleo") e "The End of Food" ("O Fim do Alimento").

SÉRGIO DÁVILA
DE WASHINGTON

Seu primeiro livro falava da crise energética. O atual fala da crise alimentar. Nos quatro anos que os separam, um assunto ficou intimamente ligado ao outro. A alta do petróleo ajudou a elevar os preços dos alimentos. Agora, Paul Roberts vê com preocupação o caso brasileiro, em que biocombustíveis como o álcool são tratados como a solução para o primeiro problema.

"Não me parece muito inteligente destinar cada vez mais terras para essa produção enquanto não sabemos com certeza qual será a demanda futura por alimentos", disse, em entrevista à Folha, por telefone, do Estado de Washington, onde mora com a mulher.

O jornalista investigativo de 54 anos defende uma mudança de hábitos dos consumidores.

"Não adianta falarmos que queremos que o governo, a ONU, seja quem for, resolva o problema, desde que nós possamos continuar tendo 2,5 carros, como é a média atual nos Estados Unidos."

FOLHA - "O Fim do Petróleo", título do seu primeiro livro, levará ao fim da alimentação, título do segundo?
PAUL ROBERTS - A crise energética sublinhou o papel central que a energia tem na produção de alimentos. Nós deveríamos saber já há tempos que energia e alimentação são intimamente ligadas e a crise de uma levaria à outra. Isso porque nossa estrutura alimentar foi pensada para um mundo em que o barril do petróleo custa US$ 15 [na última semana, bateu os US$ 140, ante US$ 10 há uma década].

Pense bem, todo o sistema de fertilizantes baseados em petróleo, o sistema de distribuição baseado em caminhões e aviões, tudo depende pesadamente do combustível fóssil. A origem disso tudo é uma época em que a energia era tão barata que quase não era levada em conta na equação.

Só isso já seria o suficiente para fazer a ligação entre as duas crises. Mas há ainda o caso recente dos programas de biocombustíveis, um novo dado na equação alimento-energia. Eles colocam mais pressão no setor de alimentação, pois ambos são feitos de maneira semelhante. Ou seja, antes nós ligávamos a alimentação, que é o setor mais importante do mundo, a uma mercadoria, o petróleo, que estava destinada fatalmente a subir de preço, pelo fato de ser um recurso que acabará um dia.

Agora, estamos substituindo por outro, o biocombustível, que briga por espaço com a própria produção de alimentos.

FOLHA - Em sua opinião, não faz sentido?
ROBERTS - Do ponto de vista de segurança alimentar, não, nenhum. Você troca um sistema que se baseia numa fonte limitada, que é o petróleo, por outro, de outra fonte limitada, que é a terra arável. Uma hora os dois acabam. O biocombustível pelo menos torna o problema mais evidente, por ser visível.

Quando você vê uma plantação de cana, ela está lá, ocupando espaço. Você é obrigado a enfrentá-lo, a pensar a respeito. O petróleo vem do fundo da terra e do mar, oculto. Do ponto de vista do público parece que vem de fonte inesgotável. É óbvio que acabará, mas não é tão visível.

FOLHA - Qual a solução, então? Há uma "terceira via"?
ROBERTS - Há todo tipo de possibilidades tecnológicas sendo pesquisadas neste momento, algumas que eu e você não podemos nem imaginar. Dá para presumir que a inovação vai continuar, principalmente quanto mais os preços subirem, historicamente o melhor estímulo intelectual. Veremos energia nuclear mais segura e barata, algas oceânicas que criem biocombustível de maneira sustentável, estamos próximos de anúncios históricos.

Mas, se a atual crise nos ensina algo, é que não bastará substituir uma matriz por outra, e sim diversificar.

Mais: não adianta resolver só do ponto de vista de oferta, trocando gasolina por álcool, por exemplo, mas também de demanda, que não pode continuar no nível atual.

FOLHA - A produção de biocombustíveis diante da crise alimentar domina as discussões. No Brasil, o governo defende que as terras destinadas ao álcool ocupam perto de 2% do total que pode ser utilizado para alimentos. Já o relator especial da ONU sobre o assunto pede moratória de etanol. Qual o seu lado?
ROBERTS - Quando se fala que a terra ocupada para o biocombustível é pequena, eu pergunto: não é terra que poderia estar produzindo alimento? Ou é onde o dinheiro está?

Quero ser cuidadoso nesse debate, mas não me parece muito inteligente destinar cada vez mais terras para a produção de biocombustíveis enquanto você não sabe com certeza qual será a demanda futura por alimentos.

As pessoas dizem: "Bem, nós sempre podemos mudar de volta a exploração da terra para a produção de alimentos". Sim, mas depois que você constrói usinas ao lado dessas terras, investe bilhões de dólares na infra-estrutura para escoamento da produção, é extremamente difícil mudar. Há a demanda criada, a pressão política...

FOLHA - É possível reprimir a demanda por combustíveis, seja da origem que forem, sem comprometer o desenvolvimento de países emergentes, por exemplo?
ROBERTS - Essa é a pergunta de US$ 40 trilhões [risos]. É difícil, no quadro atual de desenvolvimento econômico. Mas, do jeito que está, caminhamos para o desastre. Faça as contas: pegue a situação das fontes naturais vitais para o desenvolvimento econômico, como água, terra e energia; adicione a mudança climática e o aumento de população; leve em conta que essa população não só cresce como está mais rica e consumista, com apetite por mais recursos.

É a receita do desastre.

Não adianta falarmos que queremos que o governo, a ONU, seja quem for, resolva o problema, desde que nós possamos continuar tendo 2,5 carros, como é a média nos EUA, e comprando TV de tela de plasma. Eis a verdadeira discussão.

Pegue por exemplo a questão da carne. É uma das mercadorias que mais energia e recursos naturais consome para ser produzida e uma das que mais afeta o ambiente. Os EUA, a Europa e o Canadá consomem em média cem quilos de carne por habitante por ano. A média mundial é muito menor que essa. O resto do mundo não pode comer carne como essas três regiões, ou o mundo entraria em colapso total. Qual é a conclusão? Os EUA devem continuar comendo mais carne que o resto do mundo? O resto do mundo deve se contentar com menos? Ou nós deveríamos chegar a uma equação mais equânime no meio do caminho? Um futuro em que os norte-americanos comam menos carne e todo o sistema global de alimentação se adapte à nova realidade.

O mesmo se aplica a todo o resto. Moradia, por exemplo. Nós precisamos de casas com três andares e dez cômodos, mesmo com a família média norte-americana diminuindo? Carros cada vez maiores? Se continuarmos a vender essa idéia, de que sem casas grandes e muitos carros você não é bem-sucedido, de novo, caminhamos para o colapso.

FOLHA - Pela primeira vez, há mais obesos do que famintos no mundo, segundo a ONU. Como chegamos a essa assimetria?
ROBERTS - É perverso, concordo. É a primeira vez na história que ser gordo não é privilégio da elite. Dito isso, o problema da comida não ser distribuída eficientemente acontece já há algum tempo. O Império Romano foi construído em grande parte para permitir o acesso de Roma ao trigo. E Roma garantiu esse acesso de maneira bem-sucedida, porque tinha poder para isso. Eles tomavam o trigo do Egito e deixavam o país com pouco. No século 13, o mesmo aconteceu na Polônia e no mar Báltico, que alimentavam a Europa Ocidental e passavam fome. As potências sempre consumiram mais alimento, à custa dos mais pobres.

Só que isso era menos problemático no século 20, pelo menos na segunda metade, porque vivíamos no mundo do excesso, das sobras. Naquele período, a população explodiu em grande parte por conta da nossa capacidade de processar alimentos industrialmente. Assim, esquecemos a realidade de um mundo com recursos limitados. E isso infelizmente está reaparecendo. Temos uma população enorme, recursos de menos, devemos nos reeducar à luz dessa realidade e nos descolarmos de uma economia alimentar que já tem milhares de anos de idade.

FOLHA - O sr. não é totalmente contra o uso de transgênicos?
ROBERTS - Não, não sou da tribo dos que rejeitam os transgênicos apenas porque são novos e, portanto, perigosos. Meu problema com essa indústria é que ela está voltada para a chamada agricultura dos ricos, para grãos que são sucessos de venda, mas não liga a mínima para as necessidades dos outros 75% da população, que precisa de grãos não tão mercadologicamente importantes. O milagre transgênico serve aos que não precisam do milagre em primeiro lugar. De novo é: onde está o dinheiro? Fazendeiros africanos não têm dinheiro para comprar sementes transgênicas, logo, por que a indústria se preocuparia com eles? Ela está preocupada com a soja, e o pequeno fazendeiro no Quênia não precisa de sementes de soja. Ou seja, a indústria precisa provar que está preocupada com a segurança alimentar.

Eles estão usando nossos preciosos dólares de pesquisa que poderiam estar sendo usados para melhorar a saúde e educar os fazendeiros mais pobres.

Comentários finais de um leitor:
Receita do desastre (faça as contas):

Pegue a situação das fontes naturais vitais para o desenvolvimento econômico, como água, terra e energia; adicione a mudança climática e o aumento de população; leve em conta que essa população não só cresce como está mais rica e consumista, com apetite por mais recursos.

Temos uma população enorme, recursos de menos, devemos nos reeducar à luz dessa realidade.

Os EUA, a Europa e o Canadá consomem em média cem quilos de carne por habitante por ano. A média mundial é muito menor que essa. O resto do mundo não pode comer carne como essas três regiões, ou o mundo entraria em colapso total.

Precisamos de casas com três andares e dez cômodos, mesmo com a família média norte-americana diminuindo? Carros cada vez maiores? Se continuarmos a vender essa idéia, de que sem casas grandes e muitos carros você não é bem-sucedido, de novo, caminhamos para o colapso.