segunda-feira, 30 de junho de 2008

Mais uma pérola do besteirol do Professor Pardal...

O Brasil é grande, mas o mundo é pequeno
Eduardo Viveiros de Castro
(original pode ser lido aqui)
Ao contrário do que disse o Ministro Extraordinário de Assuntos Estratégicos, Roberto Mangabeira Unger, a Amazônia não é uma “coleção de árvores”. Estas existem nos hortos botânicos e nos jardins de palácios. A Amazônia é um ecossistema, uma floresta composta de árvores e uma infinidade de outras espécies vivas — inclusive seres humanos, que lá estão há pelo menos quinze mil anos.

A Amazônia jamais foi um vazio humano antes da invasão européia; ao contrário, seu nadir demográfico foi alcançado após a invasão, com suas epidemias, seus massacres metódicos, seus descimentos forçados das populações nativas para fixação em missões e feitorias. E as populações indígenas encontraram, ao longo destes milênios de co-adaptação com o ecossistema amazônico (ou ecossistemas - pois a Amazônia não é uma só, mas muitas), soluções de “sustentabilidade” infinitamente superiores aos processos truculentos e míopes de desmatamento com correntes, desfolhantes, motosserras e assim por diante. A floresta amazônica sempre foi povoada, e nunca foi, ou não é há muitos séculos, milênios talvez, “virgem” — a maioria das espécies úteis da floresta proliferou diferencialmente em função das técnicas indígenas de aproveitamento do território e de seus recursos. Mas do fato da floresta não ser mais virgem não se segue que seja legítimo estuprá-la. Pois é exatamente isso que se está fazendo.

A Amazônia está sim sofrendo um violento processo de agressão — e digo a Amazônia, não a tal coleção de árvores — a Amazônia inteira, suas populações tradicionais e suas miríades de espécies vivas. Um novo modelo de desenvolvimento, como tem sido reiteradamente pregado para o Brasil, , um que não seja a imitação simplória das receitas norte-européias, precisa ser um modelo que ponha a floresta no centro da equação — pois chegou-se a um momento da história do planeta onde a vida é o valor em crise — a vida humana e não-humana. Não é mais possível fazer política sem levar em consideração o quadro último em que toda política real é feita, o quadro da imanência terrestre.

Usei a palavra imanência deliberadamente aqui. O ministro Mangabeira Unger falou em entrevista recente que o destino do homem é ser “grande, divino; não é ser uma criança aprisionada em um paraíso verde”; e que “todas as pessoas são espíritos que desejam transcender”. Os índios concordariam com o senhor de que todas as pessoas são espíritos; talvez não concordassem com a idéia de que só os seres humanos são pessoas, mas este é um outro problema. Com certeza, porém, não concordariam com a idéia de que todos os espíritos ou pessoas “desejam transcender”. Esta é uma afirmação que soaria aos ouvidos indígenas inquietantemente parecida com aquela que eles vieram ouvindo com tanta insistência durante os cinco séculos desde a chegada dos europeus — a afirmação de que eles são crianças que precisam ouvir a mensagem divina da transcendência para se tornarem seres humanos plenos, a saber, cristãos e bons cidadãos (i.e. com muita fé e nenhuma terra). Estou falando, naturalmente, da conversão e da catequese forçadas, às quais se juntaram, naturalmente também, a sujeição econômica e política dos povos indígenas e uma história de etnocídio.

Os índios não estão “aprisionados em um paraíso verde” como disse o ministro. A Amazônia não é um paraíso; ao contrário, é uma laboriosa construção co-adaptativa, um sistema em equilíbrio dinâmico onde entraram a engenhosidade técnica humana (indígena) e as infinitas engenhosidades naturais das espécies que ocupam a região. E os índios não estão aprisionados lá.

A idéia de que as populações indígenas precisam ser “liberadas”, que Mangabeira Unger expôs em certo texto recente, parece-me visceralmente equivocada. Os índios que sofrem de depressão, suicídio, alcoolismo, são justamente os índios que não dispõem de terras. Os índios do MS, por exemplo. Não os índios da Amazônia como os Yanomami, povo forte e feliz, justamente por gozar de um território à medida de suas necessidades vitais e espirituais.

As áreas indígenas da Amazônia são as áreas menos desmatadas, são elas que detêm a devastação nas fronteiras do país; e elas são peça essencial no processo de regularização ou estabilização jurídica da situação fundiária caótica que é a Amazônia, o paraíso da grilagem, da pistolagem, do narcotráfico, do contrabando e do subsídio. A Amazônia tem hoje cerca de 20% de seu território desmatado — nas áreas indígenas, é menos de 1%. Em Rondônia, a situação é catastrófica. Em Roraima, o que temos são arrivistas (arrozeiros) vindos do Sul surfando na onda da ditadura (integrar para não entregar), que sustentam um sistema político local baseado na corrupção generalizada e na exploração extensiva de áreas sem nenhuma incorporação significativa de mão de obra. E ainda querem culpar os índios.

O General Heleno levantou uma lebre inexistente, e se fez porta-voz dos interesses mais retrógrados, civilizacionalmente, que hoje cobiçam a Amazônia. E o problema da Amazônia, ou do desenvolvimento da Amazônia, não é a falta de idéias, mas o excesso de interesses — o conflito de interesses, nem todos interessantes para o país. A posição do governador de Mato Grosso, que conjuga de maneira eticamente miraculosa (meu primeiro eufemismo do dia) o papel de representante de um Estado da federação, seu maior agente econômico e seu principal devastador ecológico, é repugnante, sob todos os títulos.

Naturalmente, os índios sofrem de vários problemas, muitos deles causados pela incúria dos órgãos e agências de estado que deveriam fazer respeitar seus direitos constitucionais. Mas também não se pode negar que os índios conhecem outras dificuldades de adaptação às formas socioeconômicas (e espirituais) da sociedade nacional. Não porque lhes faltem oportunidades (ainda que lhes faltem, em muitos casos), mas porque suas culturas e sociedades escolheram desde muito cedo na história um caminho civilizacional radicalmente distinto do nosso — o que chamei de via da imanência em lugar de via da transcendência. As culturas indígenas não estão fundadas no princípio de que a essência do ser humano é o desejo e a necessidade. Seu modo de vida, seu “sistema” de vida, no sentido mais radical possível, é outro. Os índios não rezam pelo sistema econômico-teológico ocidental que consiste em tirar das pessoas o que elas têm e fazê-las desejar o que não têm – sempre. Outro nome desse princípio é ”capitalismo”, ou “desenvolvimento econômico”. Esta é a teologia bíblica da falta e da queda, da insaciabilidade infinita do desejo humano perante os meios materiais finitos de satisfazê-los.

O desenvolvimento é sempre suposto ser uma necessidade antropológica, exatamente porque ele supõe uma antropologia da necessidade: a infinitude subjetiva do homem – seus desejos insaciáveis – em insolúvel contradição com a finitude objetiva do ambiente – a escassez dos recursos. Estamos no coração da economia teológica do Ocidente, como tão bem mostrou Marshal Sahlins; na verdade, na origem de nossa teologia econômica do “desenvolvimento”. Mas essa concepção econômico-teológica da necessidade é, em todos os sentidos, desnecessária. O que precisamos é de um conceito de suficiência, não de necessidade. Contra a teologia da necessidade, uma pragmática da suficiência. Contra a aceleração do crescimento, a aceleração das transferências de riqueza, ou circulação livre das diferenças; contra a teoria economicista do desenvolvimento necessário, a cosmo-pragmática da ação suficiente.

Os índios são os senhores da imanência. Que transcendência temos nós, os orgulhosos brasileiros - supostos representantes da Razão e da Modernidade - a oferecer a eles, neste desanimador começo de século? É mais fácil os índios nos libertarem que nós irmos libertar a eles. Pelo menos em espírito.

Mercado Aberto - Polêmica sobre hidrelétrica chega à Espanha

Folha de S. Paulo
26/6/2008

Um representante das comunidades ribeirinhas do rio Madeira conseguiu "furar" a reunião anual do conselho de acionistas do Santander, na Espanha, no fim de semana passado, para fazer denúncia contra o licenciamento da usina hidrelétrica de Santo Antônio.

O espanhol Santander participa do consórcio vencedor que construirá as usinas e responde por 20% do financiamento das obras, orçadas em US$ 9 bilhões. Na reunião, a RedeBrasil, ONG presidida por Luis Novoa Garzon, professor da Universidade Federal de Rondônia, diz ter conseguido que Emilio Botín, presidente mundial do Santander, montasse uma equipe para avaliar as denúncias. Segundo Garzon, no projeto, o consórcio vencedor subestimou as indenizações e reduziu o total de famílias afetadas pela inundação para construção da barragem de 3.000 para 760.
Marcos Madureira, diretor de comunicação do Santander para a América Latina, afirma que o banco irá apurar as denúncias feitas por Garzon. "O Santander jamais permitirá que aconteça algo fora dos parâmetros legais," diz. "O banco se comprometeu a analisar essas questões."

Garzon também diz que o consórcio estaria fazendo pressão para que as famílias aceitem as indenizações. "Querem chegar ao Ibama com os acordos fechados para acelerar a liberação da licença de instalação da usina", diz Garzon. "O processo de licenciamento ambiental está sub judice e uma articulação desse tipo poderia direcionar as investigações."

A participação de Garzon no encontro anual se deveu a uma manobra entre acionistas do Santander que pressionam o banco a adotar uma posição socioambiental correta. Para isso, cederam seu direito a voz. O objetivo é não só forçar o banco a assinar os Princípios do Equador (que obrigam instituições financeiras a só liberar financiamentos a projetos ecologicamente responsáveis) como criar entre os acionistas uma consciência ambiental. Essa posição se reforçou com a compra do ABNAmro Real, que obedece a padrões da sustentabilidade. Com a aquisição, ainda não está clara qual será a política predominante, especialmente no Brasil. Em resposta, o Santander diz ter uma política socioambiental rígida.

O ABN tornou-se conhecido por ter uma das políticas mais rigorosas na concessão de crédito, recusando financiamentos a grupos cujos projetos apresentam problemas nos licenciamentos ambientais.

Os acionistas espanhóis teriam se surpreendido com as notícias, segundo Garzon. As intervenções dos ambientalistas estão na ata da reunião e Botín pediu ao secretário do conselho, Ignacio Benjumea, que separasse as posições de ONGs das considerações dos acionistas que levantam polêmicas sobre impactos do projeto.

sábado, 28 de junho de 2008

Mudar a métrica sem mudar os valores

Publicado no site Eco-Financas em 13/06/2008

Charles Darwin escreveu que nada diferencia o ser humano dos demais animais e apesar disso ser óbvio apenas comparando a morfologia quase idêntica de todos os seres vivos, precisamos do estudo do gene para descobrirmos estupefatos que apenas um número reduzidíssimo de genes nos diferencia de um rato ou um macaco ou qualquer outro bicho. A mesma história se aplica à economia, demorou tempo demais a percepção que o PIB não serve para analisar a situação social e ambiental dos países. A questão da métrica, filha de todos os erros, vem sendo discutida de várias maneiras e com várias propostas de revisão há vários anos. Todo mundo agora sabe que o PIB é uma métrica errada, que só agrava problemas ambientais e sociais, apenas porque os ignora. Qualquer medida sensata de bem estar social mostra que há um disparate enorme entre felicidade e bem estar humano com o crescimento do PIB.

Por exemplo, apesar do crescimento econômico retumbante de muitos países, vários indicadores mostraram deterioração, como por exemplo, o percentual de pessoas que se consideram felizes, o percentual da população masculina encarcerada, suicídios, abandono das escolas, mortalidade infantil, alcoolismo, abrangência dos planos de saúde, idosos em pobreza, doenças, acidentes de trânsito, etc. Ficou bastante claro que os indicadores de saúde social progridem junto com o crescimento econômico até certo ponto, a partir do qual decaem notoriamente. E não estamos falando de países em desenvolvimento, e sim dos países ricos que nos servem de modelo.

Apesar dessa constatação, chocante para muitos, os países atrasados copiam o modelo econômico e tecnológico atual dos países ricos, que é extremamente concentrador de renda e de riqueza. De acordo com o News Economic Foundation de Londres, de cada 160 dólares adicionados a riqueza mundial per capita, apenas 60 centavos chegam aos mais pobres. Ao copiar esse modelo não vamos observar nem a fase na qual a correlação entre bem estar e crescimento pode existir. Na verdade, vamos entrar direto na fase atual dos países ricos, no qual o crescimento econômico não entrega as tão prometidas benesses sociais, como também (e não menos importante) dilacera as condições planetárias de sustentação de todas as formas de vida.

Nada poderia ser mais dramático que isso. Mas existe um algo mais, sempre. Os países ricos, nossa miragem atual, só conseguiram atingir o seu atual nível de progresso acumulado e de crescimento de fluxos (PIB) porque fizeram isso sozinhos. A partir do momento que todos seguirem pela mesma rota, isso não será mais planetariamente possível e essa escolha da humanidade só poderá terminar em uma das duas opções a seguir: colapso planetário ou guerra seguido de colapso planetário. Adicionalmente, os países ricos e os muito populosos como a China, só conseguiram escamotear o colapso ambiental local que atingiram com seu enorme progresso ou populações, através da crescente importação de bens e serviços, que não só lhes dá o suprimento necessário de recursos naturais, como também lhes economiza água, solo, serviços ecológicos às custas de outros lugares. Claro que tudo isso também à custo zero, uma vez que nosso sistema de valores - e a teoria econômica tradicional até os dias de hoje - não inclui o custo ecológico nas suas análises.

A sociedade e o seu equilíbrio com o planeta e os demais seres vivos estão sendo completamente desmantelados pelo nosso sistema econômico. A métrica PIB faz parte dessa dinâmica suicida e destruidora e também impede que esse modelo mental e a teoria econômica equivocada sejam corrigidos. Por essa razão, temos várias iniciativas para mudar a métrica: o Índice Canadense de Bem-estar (CIW), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, o Índice de riqueza do Banco Mundial, o Índice do Progresso Genuíno (GPI), o Índice de Felicidade Nacional do Butão (GNH) e os Indicadores de Qualidade de Vida Calvert-Henderson e Índice de Saúde Social da Nordham University, Teoria do Umbral de Max-Neef e outras que desconheço. A mais recente e louvável iniciativa é do presidente francês Nicolas Sarkozy que solicitou a Joseph Stiglitz e Amartian Sen (participou da formulação do IDH na ONU) uma revisão do conceito do PIB como medidor do bem estar social. Apesar dessas iniciativas serem interessantíssimas, porque levantam os erros de análise econômica atual, como por exemplo a mania de crescimento e a mania do PIB, devemos continuar céticos. Tentar mudar a métrica, sem mudar nosso conjunto de valores, sem mudar a teoria econômica tradicional, é como querer tratar um paciente de câncer com aspirinas.

Em suma, inventar uma nova métrica tem sido relativamente fácil, o difícil é usarem-na. O PIB de Kusnetz foi um sucesso e não é à toa, porque ele adere aos interesses atuais e à visão míope da nossa sociedade. Ele se adere a uma falsa convicção humana sobre a sua relação com a natureza, onde nossa enorme vulnerabilidade é ignorada, onde poucas pessoas lembram que o coração de cada um só bate porque tem um ser vivo na Terra que armazena a luz do sol. Sem as abelhas, a comida não chegaria no nosso prato, até isso é esquecido, apesar de todo o aparato moderno, porém insustentável, da agricultura moderna.

Não existe o menor incentivo para mudar a métrica, pois o PIB não subtrai, apenas soma e os prejuízos sociais e ambientais na ladainha dos economistas transformam-se em oportunidades de novos negócios e mais lucros, como se os serviços da natureza pudessem ser substituídos por capital humano, como afirmou Robert Solow. O mais estranho é ouvir falar que precisamos fazer investimentos ambientais, como se eles existissem, mostrando uma ignorância profunda, pois todos os investimentos são ambientais, não existe nada sem o meio ambiente. A ideologia segue inalterada: "nós vamos fazer todos os ambientes necessários para o progresso do povo, mas não se preocupem, iremos também fazer investimentos ambienteis" (!?!). "Precisamos crescer", arrematam.

A iniciativa de Sarkozy é louvável realmente, mas não consigo esquecer a resposta que Joseph Stiglitz deu ao Herman Daly quando foi perguntado sobre os limites do planeta e da teoria econômica que causa a rota de colisão atual. Ele se recusa a aceitar um limite e ainda bem que o Stiglitz já tem certa idade (65 anos) e não vai presenciar o legado que essas idéias estranhas irão deixar na Terra. Herman Daly é que deveria comandar esse projeto, um mentor de um pensamento que inclui uma visão sistêmica de Economia Ecológica, que parte do princípio que precisamos antes de mais nada reformular todo o pensamento econômico, que continua se disseminando na mente dos estudantes como uma fórmula para a humanidade crescer sempre, melhorando sempre, embora isso não seja verdade e seja impossível física e planetariamente. Enquanto a discussão inane da nova métrica continua, perdemos 21 campos de futebol em florestas e biodiversidade a cada minuto. Grande parte dessa perda da natureza é irrecuperável, como alertou Nicholas Georgescu-Roegen quase 40 anos atrás, vaticinando tudo que estamos vivendo hoje e por uma lástima seu alerta foi ignorado por Stiglitz e tantos outros economistas.

A imaginação é mais importante que o conhecimento, escreveu Einstein. No mundo atual o conhecimento é abundante, a imaginação é escassa e o óbvio, por essa razão, é totalmente perdido. A elite precisa parar de querer mudar o mundo, sem antes mudar a si mesma. E temos que parar de achar que temos tempo de sobra para inúmeras elocubrações que nunca ganharam o mundo prático. O mundo prático continua fazendo "business as usual" e a destruição da Amazônia segue a mesma sina das florestas da Europa (99,7% do total destruído) e dos Estados Unidos (99% destruído, dados do World Resource Institute). Mais alarmante nessa cegueira toda é que nos governos Lula e FHC dos últimos 13 anos foi destruído 35% de toda a destruição acumulada da Amazônia, um território perdido quase metade do tamanho da França. Ao final de 2010, teremos 42% da destruição acumulada da Amazônia apenas nos últimos 16 anos, igual ao território do Reino Unido e da França juntos. Grande parte desse território destruído (80 a 90%) terminará em deserto.

Enquanto relatórios robustos vão sendo feitos, esse é o processo que está por trás da crise planetária atual: a cada minuto temos menos natureza disponível para cada vez mais gente. Mudar a métrica faz sentido só após mudar o modelo mental de Sarkozy e Stiglitz e tantos outros. Na prática, tudo deve continuar como no velho ditado francês: quanto mais as coisas mudam, mais elas continuam as mesmas. E o paciente continua sendo tratado com aspirina enquanto o câncer se espalha violentamente pelo mundo. Nada como fazer a humanidade perder cada vez menos chances ao direcionar nossos esforços para bem longe das causas desse desastre: crescimento populacional absoluto contínuo, crescimento econômico exponencial contínuo e uma teoria econômica falsa que os ratifica.


Hugo Penteado Economista com graduação e mestrado pela USP Autor do livro Ecoeconomia - Uma nova abordagem (Ed.Lazuli, 2003) www.nossofuturocomum.blogspot.com

Preocupação com o meio ambiente dos bancos é puro marketing, de acordo com enquete

Direto do site www.eco-financas.org.br, aproveitem e votem!


ENQUETE

As campanhas publicitárias dos bancos sobre sustentabilidade:

Resultados:
Mostram o quanto o setor está engajado na questão 13%
Anunciam boas práticas, mas o setor ainda precisa avançar neste tema 15%
São pura estratégia de comunicação, uma maquiagem verde 71%
Nunca pensei no assunto 1%

Consumo é vilão ambiental, diz antropólogo

Putz, quando Lula vai ouvir quem realmente interessa ???

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25/06/2008 - 11h11

EDUARDO GERAQUE
da Folha de S.Paulo

Para resolver o problema ambiental nº 1 do mundo, a receita do antropólogo Emilio Moran, 61, nascido em Cuba, mas morador dos Estados Unidos desde os 14 anos, chega a ser prosaica. "Temos que aprender a desligar a televisão. Ela é a principal ferramenta do consumismo", afirma o especialista em América Latina, que há mais 30 anos investiga o desenvolvimento humano da Amazônia brasileira.

Apesar de a entrevista ter sido feita em um hotel a meio quarteirão da rua Oscar Freire (o palco das grandes grifes mundiais em São Paulo fora dos shoppings) o entrevistado, com orgulho, comenta: "Esta calça que estou usando eu comprei há 25 anos."

Moran é um acadêmico tradicional e assiste televisão. Na Universidade de Indiana, ele dirige um centro que une a antropologia às mudanças climáticas globais --o agricultor amazônico, por exemplo, segundo uma pesquisa feita pelo grupo, não sabe se proteger contra o El Niño, porque ele não registra essas oscilações naturais ao longo do tempo.

Pobreza amazônica

Se o modelo mundial de desenvolvimento, para o pesquisador, está errado, o da Amazônia idem. "Nos últimos 30 anos, o aumento do PIB da população amazônica subiu menos de 1%. Na região, quem ganha é quem já era rico em São Paulo e no Rio de Janeiro."

O antropólogo, que chegou à floresta no início das obras da rodovia Transamazônica, diz que pouco mudou na região. "Não existe infra-estrutura para o pequeno agricultor. A estrada, por exemplo, não mudou muito, continua ruim. Existe ausência de governo na Amazônia com toda a certeza."

Os grandes produtores, lembra o pesquisador, montam sua própria infra-estrutura e acabam fugindo do problema encontrado pelos menores.

"Falta compromisso com a indústria regional, que poderia valorizar os produtos amazônicos. Daria, por exemplo, para fazer uma fábrica de abacaxi enlatado, ou de suco". São várias opções disponíveis, diz Moran, que trabalha em áreas críticas, como Altamira (PA).

A experiência acumulada no campo, inclusive nos recantos amazônicos, é que leva o antropólogo a afirmar: "O maior problema ambiental do mundo é o consumismo. O mercado ensina egoísmo e o indivíduo cada vez mais está centrado em si mesmo", afirma.

Parte do caminho para sair dessa cilada ambiental, Moran apresenta no livro "Nós e a Natureza" (Editora Senac), lançado anteontem no Brasil. "É um livro mais apaixonado. Experimentei a sensação de ir além dos escritos acadêmicos", diz.

Para reforçar seu ponto de vista, de que o modelo mundial é insustentável, Moran usa exemplos da classe média brasileira e da sociedade americana. Ambas ele conhece bem. No caso nacional, cita a história em que um filho de uma família de classe média do interior de São Paulo comentou com a mãe que eles eram pobres. O motivo era a ausência de uma televisão de plasma na sala, em comparação com a residência do vizinho.

"Subprime" ambiental

"No caso americano, a crise imobiliária é também um problema claro de consumismo", afirma Moran. "O americano, na média, está todo endividado. A maioria paga apenas os juros. Cada um tem uns US$ 20 mil em dívidas só no cartão de crédito". E isso, segundo ele, apenas para querer ter mais e mais. "No caso do mercado imobiliário, por exemplo, muitos fazem a segunda hipoteca [antes de quitar a primeira] para mudar para uma casa maior.

Segundo o antropólogo, enquanto nos anos 1950 a casa de uma família média americana tinha uma vaga na garagem e 140 metros quadrados para seis pessoas, hoje ela tem espaço para três carros e 300 metros quadrados para quatro pessoas.

E os carros, lembra Moran, queimam petróleo cada vez mais em maior quantidade, por causa do tamanho e da potência do motor. "Tenho feito o caminho inverso. Hoje, tenho um carro pequeno e de quatro cilindros", conta o cientista.

Apesar de o quadro ambiental mundial ser dramático, o antropólogo afirma ser otimista e retrata isso em seu novo livro também. "Se não existir esperança, o melhor é pendurar as chuteiras e ir embora."

Para Moran, é o consumidor individual o único que tem poder de ação de fato. "As pessoas podem chegar e dizer "não". Elas podem não consumir mais porque aquilo vai endividá-las e criar pressões [ambientais]".

Além de ensinar os filhos a lerem com um olhar crítico os comerciais, todos deveriam olhar suas gavetas, seus armários, diz ele. "O importante é saber que não se está sozinho. Existem milhões de pessoas no mundo que já não aceitam esse modelo [de desenvolvimento] que nos levará ao colapso."

sexta-feira, 20 de junho de 2008

Cenário externo & doméstico, um resumo

A crise do setor imobiliário começou em abril de 2006. Até agora sem fim à vista. A crise do subprime começou em fevereiro de 2007. Ambas foram consideradas pelo FED incapazes de abalar a economia e o mercado financeiro. Errou. A relação entre ciclo imobiliário e econômico dos países desenvolvidos é muito estreita para não haver contaminação, isso era apenas uma doença com uma incubação longa, até o sintoma aparecer. Em novembro de 2007 os reguladores obrigaram os bancos a trazer estruturas financeiras fora do balanço para dentro. As perdas foram expressivas, a ponto de meses depois terem revogado a precificação a mercado desses ativos. Por isso em novembro de 2007 começou o abalo dos mercados acionários globais, com perdas acumuladas desde então. O setor imobiliário atingiu a economia de cheio – e vai continuar atingindo – quando em dezembro de 2007, pela primeira vez na história dos EUA, os preços dos imóveis caíram nacionalmente.

A crise econômico-financeira dos EUA rapidamente atingiu a Eurolândia, o Reino Unido e o Japão. A Bovespa ignorou o tremor e é hoje a única bolsa do mundo que acumula ganhos no período de novembro/07 a junho/08. Motivo: nosso trem agora não são os EUA, mas a Chíndia. Apesar da crise dos países desenvolvidos, a Chíndia não mostrou sinais de desaceleração, mantendo demanda alta por commodities, aliadas a restrições de oferta na área do petróleo, papel e celulose, alimentos, mineração e siderurgia. Quase 50% do Ibovespa está ligado a commodities. Apelidamos esse cenário de descolamento parcial, onde a recessão branda nos EUA não produziria uma recessão no mundo. Bom para a bolsa: abril e maio registrou quase 20% de valorização.

Agora tudo mudou: a não desaceleração da Chíndia determina uma dinâmica de crescimento forte do resto da Ásia emergente e da América Latina, que é exportadora líquida de commodities. A Chíndia, por sua vez, é a principal responsável pelo aumento de demanda mundial por commodities e isso explica a inflação global persistente. A reviravolta dos números de inflação foi no mundo todo: acabou o período de crescimento acelerado com inflação moderada. No Brasil, o IPCA, projetado em 4,3% no início do ano, agora está em 6,1% para 2008. IGPM idem, foi revisto de 4,5% para 10%.

A surpresa negativa da inflação global colocou em xeque as políticas monetárias frouxas dos países ricos para socorrer suas economias fragilizadas. Temos agora um cenário apelidado de estagflação falsa, no qual a inflação global manterá commodities em alta no 2S08. O esforço de desinflar as commodities não recairá sobre a Chíndia, países que não têm nem vontade nem instrumento de política eficaz para isso. Esse esforço recairá sobre os países ricos e temos dois cenários possíveis: alta de juros para produzir menor crescimento e demanda por commodities e forçar queda nos preços no 1S09 ou queda da atividade por conta das crises no 2S08, eliminando a necessidade dos bancos centrais dos EUA, Eurolândia e Reino Unido elevarem as taxas. Em qualquer um dos cenários, estamos frente a frente com uma economia global mais fraca e com queda dos preços das commodities. Ruim para bolsa, porque ela deve antecipar?

Finalmente, por falta de espaço, não falei de estagflação verdadeira via choque de oferta clássico e o risco de guerra entre Israel e Irã... fica para a próxima, mas isso é incerteza e mercados não precificam incertezas, bem como questões de longo prazo.

Adeus Amazônia e Cerrado e o debate do etanol...

Esse é um debate extenso. Minha postagem anterior foi sobre os riscos do etanol serem feitos de forma descuidada num país como o nosso, extremamente vulnerável por causa da fragilidade e da nossa dependência em relação a dois biomas, o Cerrado, que todo mundo esquece, e a Amazônia.

Durante os 8 anos do governo FHC e os 5 anos do governo LULA ocorreu 35% de toda destruição acumulada da Amazônia desde o descobrimento em 1500 até 2007. A destruição da Amazônia acelerou 2.985% durante o período FHC+LULA. Agora entra a demanda por alimentos do mundo todo que está vendo mudanças estruturais lado a lado com colapsos ligados a mudança climática e atrasos ecológicos. Adeus Amazônia e Cerrado, não será a primeira vez que a humanidade irá passar fome e passar por um enorme exôdo ambiental por conta de destruições dos biomas. A conquista da agricultura moderna atual tem um preço: o colapso novamente e dessa vez de forma bastante suicida. Não será a primeira vez que um país para se desenvolver terá acabado com suas florestas, Europa (destruiu 99,7%) e Estados Unidos (99%). A difernça entre os países que se desenvolveram antes com esse modelo suicida é que eles fizeram isso sozinhos e quando esgotaram tudo, continuaram importando via comércio global, onde também, o custo ecológico é nulo. Para os economistas uma árvore só tem valor quando derrubada ao chão.

Ricardo Peres, amigo e leitor, deu a seguinte contribuição para o debate que se abre: "Como todos os outros problemas correntes, trata-se de uma questão de escala, e não da cana-de-açúcar em si. A natureza pode e deve ser cultivada, desde que a biodiversidade não seja comprometida. Isso incorre em estratégias modulares, descentralizadas e não lineares de cultivo, onde os biomas podem ser preservados. Ainda, existe um lobby pesado do cartel do petróleo contra o etanol brasileiro que carece de mais atenção e análise mais rigorosa. Se por um lado é verdade que o etanol brasileiro precisa evoluir do ponto de vista socioambiental, por outro lado também é verdade que o etanol de cana é o único substituto viável para uma parte significativa do mercado do petróleo. Esse debate precisa de mais cuidado para que o equilíbrio dos processos seja estabelecido de forma a servir de referência e inspirar as práticas de cultivo sustentável, tanto no Brasil como no exterior. O Brasil já é uma referência tecnológica nesse setor. Agora deve almejar tornar-se a referência ética e sustentável do setor. "
Tudo isso é verdade, mas temos problemas de sustentabilidade apesar disso. O etanol não é gratuito como muitos pensam, brota de três recursos naturais finitos: água, solo e serviços ecológicos. O etanol dentro do modelo de crescimento mental falso dos economistas é apenas uma alavanca na direção do colapso. Pode ser minimamente considerado como uma solução bem paliativa, como uma aspirina para um paciente terminal. O que trouxe o etanol para a viabilidade financeira foi a elevação do custo do petróleo. A extração de petróleo na Alberta e no Alaska, às custas de desastres ambientais homéricos também foi alcançada pelo preço. O sistema de preços funciona assim: quanto mais viável for economicamente, mais inviável é ambientalmente. Nessa regra entra todas as novas formas de extrair petróleo (de areia, do fundo dos oceanos), da retomada do uso do carvão, os biocombustíveis, etc. O sistema de preços não detém o saque plantário e a rota suicida, ao contrário, acelera. É nesse contexto ainda que entrou os biocombustíveis. E o etanol.

Já em relação ao lobby do petróleo, eles não precisam de lobby nenhum, não há substituto para o petróleo até onde a vista alcance. Faltar petróleo também é difícil, não exploramos nem 1% da crosta terrestre. As medidas corretas deveriam ser imediatamente estancar crescimento econômico e populacional, atingir 100% de eficiência na produção, geração e consumo de energia, fazer uso de combustíveis que não carbonizam a terra, como nuclear, biocombustíveis, etc. até acharmos uma tecnologia descentralizada em larga escala a base do hidrogênio ou do sol. Os biocombustíveis e a energia nuclear não são a solução e sim a falta da solução.
A questão de falta de energia no modelo mental dos economistas - que o governo aplaude - é sempre na direção de precisamos produzir mais. No Brasil é ridículo pensarmos em construir usinas, quando podemos aumentar a oferta de energia em 90% apenas com ganhos de eficiência no consumo e com atualização tecnológica das linhas de transmissão e das linhas já existentes. Esse modelo de desenvolvimento de grandes obras é uma das maiores burrices humanas, se é que existe algum exemplo de inteligência em tudo isso que estamos fazendo e que já colocou a vida desse planeta na maior rota de extinção dos últimos 65 milhões de anos. Essa rota é perigosa, esquecemos com isso que todos os seres vivos dependem de todos os seres vivos.
O segundo passo seria acelerar a transformação da produção centralizada em unidades individuais de produção de energia a partir de elementos veiculares (pessoas, carros, bicicletas) e das construções, incluindo moradias. O metrô da Inglaterra vai capturar o calor das pessoas nas estações para sua própria energia. Esse é o lobby maior a ser vencido: os governos têm que trabalhar para desconcentrar a produção de energia que ficam nas mãos de pouquíssimas empresas, desinteressadas em ajudar e mudar, apesar do risco iminente que estamos enfrentando.
O poder de alguns poucos vem do controle da energia e dos alimentos, mas o poder foi feito para servir e não para se servir dele. Uma sociedade humana sem poder está sendo gradativamente destruída, pois as pessoas na vasta maioria perderam sentido de viver, liberdade, bem estar, autonomia e conhecimento. O sistema sem as pessoas - e o meio ambiente - também será destruído. Isso é auto-fágico, espero que a elite iluminada que quer mudar o mundo sem mudar a si mesma, perceba que também faz parte de uma espécie animal ameaçada e que nessa rota, no futuro, não haverão vencedores. Espero que perceba isso a tempo: que o modelo dos países ricos e o modelo dos ricos da nossa sociedade é egoísta, depredador, suicida, anti-social, anti-econômico e precisa ser revisto. Não há sustentabilidade sem simplicidade e solidariedade.
Não dá para se dizer sustentável e ter casas que não usamos, carros que não usamos, bens que não usamos e riqueza que não usamos. Essa é uma questão ampla. O debate ainda não fechou. Espero que feche antes de nos tornarmos uma China totalmente poluída, sem luz do sol e sem céu azul.

quinta-feira, 19 de junho de 2008

A elite iluminada que quer mudar o mundo e a história dos rapazes assassinados no Rio

Uma das razões da nossa sociedade ter se tornado totalmente insustentável é a sociedade, não apenas o meio ambiente.

Nossa maior desgraça não são os ricos, as celebridades e os políticos. Nossa maior desgraça é nossa admiração por eles.

Enquanto celebridades compram fazendas e iates que não precisam, uma delas agora está na fase dos diamantes e jatos particulares, com receita proveniente de casacos de pele de animais que perdem a pele vivos, enquanto empresários ignoram os ambientalistas para aumentar sua riqueza afundando as cavenas do PETAR debaixo d´água e enquanto nossos políticos ficam nas maracutaias - todos eles praticamente sem exceção - de corrupção total, essa é a história de três espíritos que com certeza irão continuar.

Para o resto, a certeza de continuidade da alma na riqueza e poder é bastante restrita.

O poder foi feito para servir e não para se servir dele. A pior morte não é a do corpo, é a do espírito.

UOL NOTÍCIAS – COTIDIANO
17/06/2008 – 21h42
Saiba quem eram os três jovens do morro da Providência mortos no fim de semana
André Naddeo do Rio de Janeiro e da Redação, em São Paulo

Dos três jovens do morro da Providência (centro do Rio) torturados e mortos depois de supostamente serem levados a traficantes do morro da Mineira, dois tinham passagem pela polícia. Dois deles iriam começar a trabalhar na segunda-feira passada. Um deles sonhava em completar 18 anos logo para, ironia do destino, alistar-se no Exército. David Wilson Florêncio da Silva, 24, Wellington Gonzaga da Costa Ferreira, 19, e Marcos Paulo Rodrigues Campos, 17, teriam desacatado os militares na manhã de sábado, na praça Américo Brum, quando voltavam de um baile funk.

Segundo a Polícia Civil, Ferreira teve passagem pela polícia por "associação para o tráfico", quando era menor de 18 anos, e Silva por porte de arma e corrupção de menores.

Também segundo a polícia, os militares (que atuam em operação no morro desde dezembro) alegam que os abordaram porque um deles tinha na cintura um volume semelhante ao de uma arma. Eles tinham acabado de descer de um táxi, com uma moça. Os militares os revistaram e encontraram apenas um celular. Depois da revista, os três e outras pessoas que se juntaram ao redor começaram a protestar. Segundo os militares, houve brigas e troca de ofensas. Os três foram detidos, levados ao quartel da Companhia de Comando.

Ouvidos pelo capitão Ferrari, que respondia pela Delegacia Judiciária Militar do quartel, os três foram liberados. Com um grupo de 11 militares, os três teriam sido então levados ao morro da Mineira, dominado pela facção ADA (Amigos dos Amigos), inimiga da facção CV (Comando Vermelho), que atua no morro da Providência. David, Wellington e Marcos desapareceram e os corpos dos três foram encontrados no domingo em um aterro sanitário em Duque de Caxias.

A reportagem do UOL conversou com parentes e amigos dos três para saber um pouco mais sobre eles. Leia abaixo:

David Wilson Florêncio da Silva, 24, como a maioria dos moradores da Providência, teve uma infância difícil. Ainda bebê, foi abandonado pela mãe. Como o pai já era falecido, acabou criado pela avó materna, dona Benedita Florêncio. "Ele sempre me levava ao médico, fazia tudo por mim", conta ela, segurando as lágrimas.

A relação com a avó sempre foi estreita. "Ele levava os doces feitos por ela e vendia na escola quando garoto", lembra a amiga Deyse Lay, 30, que o conheceu na 5ª série do ensino fundamental. "Era um bom rapaz, eu garanto, sempre tive amizade com ele", diz.

Desde cedo, além da avó Benedita, David tinha uma outra paixão: o futebol. Mais especificamente o seu clube de coração, o Flamengo. "Ele era apaixonado, ia sempre que podia ao Maracanã comemorar a vitória do time", conta a avó. Festa, aliás, era com ele mesmo: "Era uma pessoa alegre, divertida. Gostava de reunir os amigos sempre. Ele queria comemorar tudo. Tudo era na base de festa", conta a amiga Deyse.

Já adulto, usou o conhecimento futebolístico adquirido para dar aula de futebol para crianças carentes do morro da Providência. Mas como o trabalho era voluntário e o dinheiro curto, David teve que interromper os estudos. Em 2005, ele largou o 1º ano do ensino médio para trabalhar.

Em Gamboa, bairro da região central do Rio, conseguiu emprego em uma obra como auxiliar de pedreiro. Em 2008, porém, o torcedor flamenguista conseguiu voltar à escola. Trabalhava durante o dia e fazia o supletivo à noite. Há cerca de uma semana, conseguiu vaga nas obras de remodelagem de casas do programa Cimento Social, principal motivo da ocupação do Exército na Providência. Começaria na última segunda-feira.

Ele cumpria o segundo ano do ensino médio, sonhava em fazer faculdade de educação física e planejava o casamento. "Ele não era envolvido com o tráfico, ele iria começar a trabalhar. Isso tudo é um absurdo", conta a noiva Gisele Pereira de Lima, 19.

Wellington Gonzaga da Costa Ferreira, 19, apesar de nunca ter trabalhado no ramo, também iniciaria na última segunda-feira trabalho como pedreiro no programa Cimento Social, razão pela qual os militares ocupam o morro da Providência. "Ele estava bastante ansioso", conta Débora Cristina Gonzaga, 32, prima.

À noite, o jovem trabalhava como entregador de pizza dentro da própria comunidade. Era bastante amigo de David Florêncio, que o apresentou à namorada Tamires. "Ele gostava de sair sempre com ela. Gostavam de shopping e cinema. Ele a tratava muito bem, tinha foto no Orkut [site de relacionamentos da Internet] dele fazendo coração para ela. Era uma pessoa querida", conta Deyse Lay, 30, que também o conheceu por intermédio de David.

Vascaíno de coração, acompanhava o time de perto e rivalizava com o amigo David, flamenguista. "Quando tinha clássico do [Campeonato] Carioca, os dois saiam com suas camisas e ficavam apostando quem iria ganhar", conta a prima Débora.

Wellington, que nunca tinha dado muita atenção aos estudos, estava correndo atrás do tempo perdido. Cursava a 2ª série do ensino fundamental, em processo de alfabetização.

Marcos Paulo Rodrigues Campos, 17, era o mais novo dos jovens assassinados no morro da Mineira. E o que tem a história mais irônica: seu sonho, desde garoto, foi ingressar no Exército. "Ele sonhava em fazer logo 18 anos para poder se alistar, ele queria usar farda e tudo o mais", relembra a mãe, Maria de Fátima Barbosa, 48, agora indignada ao ver que, supostamente, seu filho foi levado justamente por militares e entregue a uma facção criminosa.

Desde cedo, para seu próprio sustento e dos seus outros seis irmãos, ajudava a mãe descarregando caminhões de areia em obras dentro da própria comunidade da Providência. "Ele arrumava um dinheirinho com isso, né. A gente não tinha dinheiro, sempre passamos por bastante dificuldade", conta Maria de Fátima.

O adolescente flamenguista cursava a 7ª série do ensino fundamental. Gostava de namorar. Mas sem compromisso sério. "Ele não gostava de namorar sério, para ele, o que importava era aproveitar a vida", conta a mãe.

O futebol também era motivo de descontração. Reunir os amigos para uma partida na Praça Américo Brum, mesmo local onde foi abordado e levado pelos militares, era algo comum, quase diário.

"Ele era um adolescente 'crianção'. Lá em casa está um vazio no nosso coração, uma dor imensa, todo mundo calado. Lá em casa era uma alegria", conta Maria de Fátima, não contendo as lágrimas. "Se eu pudesse eu iria junto. Mas eu quero só guardar coisas boas dele, não quero pensar que ele morreu assim brutamente. Prefiro lembrar do sorriso dele."

quarta-feira, 18 de junho de 2008

Carlos Minc anuncia apoio da Fiesp contra desmatamento da Amazônia

Interessantíssimo, a única coisa que precisamos salientar é que isso é mais que a obrigação, isso deveria ser dado, é como não matarás.... Mostra a idade da pedra que estamos: "Ah, é verdade, não podemos comprar coisas que envolvem escravidão, morte e desmatamento, puxa, porque não disseram isso antes? Pelo menos isso mostra que quem desmata a Amazônia somos nós! Os consumidores!
Carlos Minc anuncia apoio da Fiesp contra desmatamento da Amazônia
10/06/2008
Em evento hoje (10/6), na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, anunciou duas iniciativas para se diminuir o desmatamento na Amazônia:

Em breve será assinado termo de cooperação do ministério com a federação das indústrias paulistas para que o setor passe a só comprar produtos de fornecedores que não estão desmatando a floresta;

A partir de 15 de junho, grandes empresas do país - basicamente frigoríficos, siderúrgicas, madeireiras e agropecuárias - serão notificadas para que, em no máximo 60 dias, encaminhem ao governo a listagem dos seus fornecedores de produtos originários da Amazônia, para que seja fiscalizada sua procedência.

"Não estamos criando punições novas, mas dando prazos para o cumprimento de leis já existentes. As empresas serão co-responsáveis pelos crimes ambientais cometidos pelos seus fornecedores e arcarão com as penas da lei. É o 'cumpra-se' da fiscalização das cadeias produtivas", afirmou o ministro, referindo-se à campanha que desenvolve há anos no Rio de Janeiro, como deputado estadual, pelo cumprimento das leis.

O ministro falou sobre a Amazônia e outros temas em palestra para integrantes do Conselho Superior de Meio Ambiente da Fiesp, na sede da entidade, na Cidade de São Paulo. A reunião foi aberta a jornalistas que, assim como os integrantes do conselho, puderam fazer perguntas a Minc.

Ao lado do presidente da Fiesp, Paulo Skaf, o ministro disse que "não adianta colocar um policial atrás de cada um para se evitar o desmatamento da Amazônia". Ao contrário, segundo ele, é preciso dar condições de renda para que os 25 milhões de habitantes da região possam produzir de forma sustentável, sem destruir a floresta.

Nessa linha de atuação, Minc defendeu o apoio dos empresários modernos que já perceberam a importância de se ter desenvolvimento econômico aliado à preservação do meio ambiente. Segundo o ministro, o apoio da Fiesp é fundamental nesse processo.

"Não há outra forma de qualificar e modernizar a cadeia produtiva. A própria indústria tem que fiscalizar a cadeia dos seus fornecedores. Tenho certeza de que a Fiesp será nossa parceira no sentido de resgatar a Amazônia, contra esse modelo predador", disse Minc.

O presidente da Fiesp deu apoio às declarações do novo ministro do Meio Ambiente, afirmando ser importante o combate a "eventuais empresas que estejam fora da lei, desmatando".

Em sua palestra, o ministro não falou apenas da Amazônia, defendendo também ações para o aumento do índice de saneamento no país, para a diminuição da poluição atmosféricas nos grandes centros urbanos e para investimentos em tecnologias limpas, entre outros temas.

Segundo Minc, serão adotados no Brasil padrões mais rigorosos de controle da poluição do ar, a exemplo do que ocorre em países desenvolvidos. Em relação ao combate aos crimes ambientais, o ministro anunciou que, em 15 dias, o presidente Lula deverá assinar decreto, com 50 artigos, regulamentando a Lei de Crimes Ambientais, tornando-a mais rigorosa.

Entre os pontos acordados com o presidente, os prazos para recursos dos supostos criminosos cairão de três a quatro anos para três a quatro meses. E o Ibama, a exemplo da Receita Federal, terá poder para leiloar imediatamente os bens apreendidos, para inclusive usar os recursos auferidos para financiar as ações de combate aos crimes ambientais.

Etanol: trabalhando para o fim do mundo, também

Brasil é exemplo de desvantagem do etanol


A experiência do Brasil com o etanol pode servir como um exemplo para o mundo das desvantagens apresentadas pela suposta "revolução energética" criada pelos biocombustíveis, segundo uma análise publicada pelo jornal britânico The Independent nesta terça-feira.

O jornal diz que apesar de os biocombustíveis serem quase irresistíveis aos políticos que querem ser vistos como preocupados com os efeitos da mudança climática, a produção do etanol no Brasil tem, no fim das contas, um efeito negativo no combate ao problema porque tem gerado desmatamento e poluição.

"A indústria do etanol no Brasil está ligada à poluição do ar e da água em uma escala épica, ao desmatamento da floresta amazônica e da mata atlântica e à destruição da savana na América Latina", diz o vice-editor de assuntos internacionais do jornal, Daniel Howden.

Segundo o Independent, as conseqüências da "modesta redução" provocada pelo etanol na emissão de dióxido de carbono nas ruas das cidades brasileiras podem ser vistas nas "gigantescas cicatrizes das plantações de soja na Amazônia" e nas "nuvens negras dos campos de cana-de açúcar em chamas".

O jornal diz que o efeito final do etanol no combate às emissões que provocam as mudanças climáticas é negativo. "Apesar dos níveis modestos de industrialização na maior nação da América Latina, o Brasil passou a ser o quarto país do mundo em emissão de gases de efeito estufa", afirma o Independent.

Segundo o jornal, isso está sendo causado por um desmatamento desenfreado, um fenômeno que, por sua vez, segue os passos do aumento no preço dos produtos agrícolas. "Enquanto os preços dos produtos usados na produção de biocombustíveis aumentavam nos últimos 18 meses, as taxas de desmatamento quebraram todos os recordes", afirma o jornal.

O Independent diz que, ao mesmo tempo em que o mundo acorda para as ameaças da mudança climática, "incentivos perversos causam um ataque aos pulmões do planeta". Howden diz que o ambientalista brasileiro Fábio Feldman, que ajudou a passar a lei estipulando o mínimo de 23% de etanol a ser adicianado a todos os combustíveis, está agora preocupado com o legado da decisão.

"Algumas plantações de cana-de-açúcar são do tamanho de países europeus - essas monoculturas imensas têm substituído ecossistemas importantes", diz Feldman, segundo o jornal. O jornal conclui dizendo que a razão pela qual o argumento de que o mundo pode "plantar" o combustível que precisa parece muito bom para ser verdade é porque realmente é muito bom para ser verdade.

fonte: BBC Brasil

segunda-feira, 16 de junho de 2008

Meia amazônia não, mais uma iniciativa importante do GREENPEACE

Cliquei na figura abaixo, assine e divulgue.



Adeus Cerrado!!!!

Li certa vez, e isso alguém com mais tempo pode checar, que a existência do aqüífero Guarani depende do Cerrado. Guarani, o maior do mundo, já está bem contaminado, diga-se de passagem, pelos dejetos de uma agricultura moderna absolutamente insustentável, que tantos defendem. Li também - e alguém pode checar - que do Cerrado já foi destruído 57%. Washington Novaes está certíssimo: meio ambiente não é só Amazônia, na verdade é tudo.

Como esse dado é antigo, podemos falar em números maiores que 57%, uma vez que, caro leitor, a destruição da natureza é contínua e quando acordo nesse mundo que eu desacredito, meu primeiro pensamento é: "amanhecemos com menos natureza de novo, hoje."

Enquanto a natureza vai sendo devastada, vários intelectuais ficam chafurdando nas suas vaidades, muitas vezes confundida com cegueiras incomensuráveis, sempre em lugares bonitos, arborizados e protegidíssimos dos seus egos e das suas faculdades mentais, totalmente distantes das necessidades da vida desse planeta e sem proposta alguma viável que dê certo para deter o processo que nessa rota terminará com todos nós.

REPÓRTER ECO -- TV CULTURA/SP
domingo - 15/06/08
Cerrado

Washington Novaes, jornalista, é supervisor geral do Repórter Eco.

É muito preocupante que um dos primeiros atos do novo ministro do Meio Ambiente tenha sido o de excluir os proprietários rurais de 100 municípios do Cerrado onde está sendo mais forte o desmatamento da proibição de receber créditos oficiais, que fora estabelecida por portaria do Banco Central.

A alegação do ministro é de que esses municípios estão fora do bioma amazônico. E fica então a pergunta: quer dizer que no Cerrado pode Desmatar?

Mas onde fica o conhecimento científico de que é muito forte a inter-relação entre os biomas, que um depende do outro? Onde fica a informação de que o Cerrado contribui com parte importante das águas que correm na bacia amazônica? Ou o fato de que um terço da rica biodiversidade brasileira está no Cerrado? Ou ainda a de que 40% das emissões brasileiras que contribuem para mudanças climáticas provêm de queimadas e desmatamentos no Cerrado?

É tudo muito grave, quando se sabe que esse segundo maior bioma brasileiro já perdeu a vegetação em 800 mil quilômetros quadrados e perde mais 22 mil a cada ano. São muito poucos - menos de 5% dos fragmentos totais - os que têm possibilidade de sobreviver, com mais de 2 mil hectares contínuos.

Seria uma ilusão pensar que essa exclusão do Cerrado daquela portaria nada tem a ver com a expansão do plantio da soja e da cana, bem como das pastagens. Ela favorece claramente essa expansão desordenada, que deveria ser submetida a regras claras, como as que têm sido prometidas pelo governo federal mas não acontecem.

E será tudo ainda mais preocupante se se lembrar que o Ministério do Meio Ambiente continua a contar com recursos insignificantes, em torno de meio por cento do orçamento federal. E isso faz com que o Ibama, por exemplo, só tenha 400 fiscais para fiscalizar mais de um milhão e meio de hectares de unidades de conservação, reservas e outras áreas públicas.
Quando é que vamos levar a sério essas coisas?

Washington Novaes, jornalista, é supervisor geral do Repórter Eco. Foi consultor do primeiro relatório nacional sobre biodiversidade. Participou das discussões para a Agenda 21 brasileira. Dirigiu vários documentários, entre eles a série famosa "Xingu" e, mais recentemente, "Primeiro Mundo é Aqui", que destaca a importância dos corredores ecológicos no Brasil.

sexta-feira, 13 de junho de 2008

ECONOMIA DOS EUA ESTÁ NO LIMIAR DA RECESSÃO


São Paulo, 13 - A economia dos Estados Unidos está no limiar da recessão, disse há pouco o economista-chefe e estrategista do Banco Real Asset Management, Hugo Penteado. No entanto, o foco do Federal Reserve deve se voltar daqui para frente para os riscos de inflação e a autoridade monetária poderá aumentar os juros já no segundo semestre deste ano, salientou o economista.

Os números do índice de preços ao consumidor (CPI) nos Estados Unidos, divulgados hoje, confirmaram a pressão crescente dos preços na economia. O CPI subiu 4,2% em maio ante maio de 2007, o nível mais alto desde janeiro. "A inflação nos Estados Unidos está ligada ao excesso de demanda global por commodities e a inflação das commodities deve continuar", avaliou ao AE Broadcast Ao Vivo.

A demanda por commodities vem principalmente da Ásia. Se China e Índia não desacelerarem o ritmo, os bancos centrais dos países desenvolvidos vão ter que apertar a política monetária. "China e Índia não mostram menor sinal nem de vontade nem de capacidade de desacelerar suas economias. Então, todo o esforço de resolver o problema de inflação global está recaindo sobre os desenvolvidos, como os Estados Unidos", disse. "Se até meados do terceiro trimestre as taxas de inflação continuarem se deteriorando, isso vai exigir uma resposta mais incisiva dos BCs, que levará a uma queda da atividade, o que no caso dos Estados Unidos é preocupante", disse.

Segundo Penteado, atualmente os países desenvolvidos enfrentam inflação alta com atividade fraca, enquanto os emergentes estão com inflação alta e atividade aquecida. Para o economista, a ação dos BCs este ano poderá levar a uma desaceleração da China e Índia no início de 2009, conseqüência de uma menor demanda dos desenvolvidos, que correspondem a 60% das exportações chinesas.

Um crescimento menor para esses dois países, segundo Penteado, seria um PIB em 7% ou 7,5%, "saindo do atual 10%". "A regra de bolso na China é a seguinte: se crescer abaixo de 6% estaria em recessão. A regra de bolso para economia mundial é que crescer abaixo de 3% seria uma recessão mundial As réguas de crescimento variam muito de país", explicou.

Penteado estima que os EUA crescerão 1% este ano e deve rever para abaixo sua projeção atual de PIB em 2% ou 2,5% em 2009, para 1% ou 1,5% por causa do problema inflacionário global.

Penteado acredita que a ajuda fiscal do governo norte-americano, com devolução de impostos aos contribuintes e os efeitos do ciclo de afrouxamento monetário agressivo promovido pelo Fed podem evitar o pior cenário para a economia. "As perspectivas para a economia estão acima da linha d'água, mas os riscos são para baixo".

O economista afirmou que o fim da crise nos Estados Unidos depende do fim da crise no setor imobiliário americano. "Mas o pior da crise imobiliária ainda não chegou e não existe resposta clara sobre o fim dessa crise", comentou.

FOMOS ATROPELADOS POR INFLAÇÃO GLOBAL

São Paulo, 13 - O Brasil tem sido surpreendido negativamente pela inflação, disse hoje o economista-chefe e estrategista do Banco Real Asset Management, Hugo Penteado. "Fomos atropelados pela inflação global. Tivemos uma deterioração aguda do IPCA. Isso cria dificuldade adicional para o BC", disse o economista ao AE Broadcast Ao Vivo.

Segundo ele, a inflação global, via commodities, é um dos argumentos para alta de juros no Brasil e deve afetar ainda mais a economia caso a China desacelere a partir de um aperto monetário nos países desenvolvidos. "O Brasil vai crescer menos, mas não será nada dramático", disse.

Para o economista, o Brasil deverá ter uma expansão de 5% este ano e 4,5% no ano que vem. Mas Penteado admite que por conta das surpresas recentes com a inflação, esse crescimento poderá cair para 3,5% ou 4% em 2009.

Penteado, no entanto, acredita que o BC tem a situação sob controle. "Com a ata divulgada ontem, ficou claro que o BC está satisfeito em manter o ritmo (de alta de juros)", avaliou. Penteado estima que o Copom elevará a Selic em doses de 0,50 ponto porcentual para 14,25%, mas essa aposta tem agora um "viés para cima".

O economista disse ainda que "não vale" no momento a discussão se o Banco Central ficou "atrás da curva" com a decisão de elevar a Selic em 0,50pp na semana passada para 12,25%. "O BC não tem que controlar os preços dos ativos no mercado internacional. A variável de controle da demanda interna, que ele tem enfrentado bem", avaliou.

(Luciana Xavier e Lucinda Pinto)
O áudio com a íntegra da entrevista estará disponível, em instantes, no seguinte endereço:
www.ae.com.br/broadcast/entrevistas

quinta-feira, 12 de junho de 2008

Ibama multa siderúrgicas em R$ 414 milhões

Comentário:
Só um breve comentário: Minc quer igualar legislação ambiental do Brasil com o dos países desenvolvidos para não continuar essa loucura da gente receber a produção suja deles. Porque é assim que funciona: lá não pode, vamos ver onde pode. Nos portos da China existia uma placa em inglês para todos que chegassem: "Problemas com a legislação ambiental no seu país? Venha para cá." Como se a linha que separa os países realmente existisse e como se estivéssemos ilesos quando tiramos a produção suja da fronteira dos nossos países.

Abaixo vejam texto direto do site do IBAMA:

Brasília (12/06/2008) - Uma operação de cruzamento de dados do Sistema-DOF (Documento de Origem Florestal) identificou um consumo de 800 mil metros cúbicos de carvão ilegal pelas siderúrgicas de Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo somente no ano de 2007.

As multas somam R$ 414,7 milhões aplicadas em 55 siderúrgicas de Minas Gerais, 4 no Mato Grosso do Sul e 1 no Espírito Santo. O volume de carvão vegetal soma 10 mil caminhões carregados, que se enfileirados ocupam 200 km de extensão, equivalente à distância entre Brasília e Goiânia. Além disso, foram aplicados R$ 70 milhões em multas em diversos fornecedores de carvão do Mato Grosso do Sul. No total foram R$ 484,7 milhões.
A operação teve início no Mato Grosso do Sul com a operação Rastro Negro Pantanal onde foram identificados no campo diversos ilícitos ambientais relacionados à exploração de carvão vegetal nativo do Pantanal, com rebatimento direto nas siderúrgicas do Estado de MG e MS. Os dados dessa operação subsidiaram a análise do consumo de carvão vegetal pelas Siderúrgicas dos três Estados envolvidos (Minas Gerais, Mato Grosso do Sul e Espírito Santo).

O Ibama implantou o Documento de Origem Florestal - DOF que é o documento eletrônico de controle do transporte de produtos e subprodutos florestais. Com base nas informações do Sistema-DOF os órgãos de meio ambiente têm acesso à informação sobre o transporte florestal oriundo de florestas nativas em tempo real. O sistema é operado pelos usuários responsáveis pelo transporte da origem ao destino dos produtos e subprodutos florestais e configura a licença válida para acobertamento do transporte e armazenamento dos mesmos.

As informações geradas pelos sistemas de controle eletrônico passaram a subsidiar as ações de fiscalização do transporte de produtos e subprodutos florestais. Além disso, os trabalhos de fiscalização em campo também passaram a direcionar as análises dos dados gerados pelo sistema no intuito de identificar os ilícitos ambientais relacionados à exploração, transporte e consumo de produtos florestais provenientes de exploração ilegal.

O resultado foi obtido a partir de uma parceria entre a Diretoria de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas do Ibama, da Superintendência do Ibama no Mato Grosso do Sul e do Instituto Estadual de Florestas de Minas Gerais.

O Diretor de Uso Sustentável da Biodiversidade e Florestas do Ibama, Antônio Carlos Hummel, diz que essa é a primeira grande operação de cruzamento de dados do Sistema-DOF. “Estamos colhendo os frutos do esforço de modernização do Ibama. Os resultados são surpreendentes e sugere o cenário futuro de atuação do padrão de fiscalização ambiental. Estamos responsabilizando a cadeia produtiva e a sociedade de estar ciente que boa parte do carvão utilizado na produção do ferro e aço do País vem do desmatamento ilegal, principalmente do Pantanal e Cerrado”.

O diretor de Proteção Ambiental, Flavio Montiel, disse que o uso do Sistema DOF é o perfil da fiscalização ambiental do futuro, em que os sistemas eletrônicos trabalham para aumentar e tornar mais eficaz a capacidade de controle de crimes ambientais. Ele observa que o apurado pelo Sistema DOF é apenas a ponta do iceberg de um passivo ambiental. “O Ibama está fazendo levantamento também na origem”, diz Montiel.

Segundo o analista ambiental do Ibama Ignacio Santos, que participou ativamente da operação, os principais ilícitos observados no mercado carvoeiro são “transporte de carvão com volume de carga superior ao acobertado pelo documento de transporte, exploração ilegal de carvão em áreas não autorizadas, transporte utilizando um mesmo documento de transporte mais de uma vez, declaração falsa sobre importação de carvão vegetal pelos países vizinhos, não cumprimento da reposição florestal por parte das indústrias siderúrgicas, falsificação de documentos e fabricação de carvão vegetal sem licença ambiental válida”.

De acordo com o Coordenador-Geral de Recursos Florestais do Ibama, José Humberto Chaves, a metodologia adotada se mostrou extremamente eficiente e de baixíssimo custo. “É possível comprovar na análise alguns fatos detectados nas fiscalizações de campo. Um exemplo disso é o transporte de carvão com volume da carga superior ao volume declarado no documento de transporte. Essa prática é muito comum, pois mantém o saldo na origem para acobertar novos transportes e reduz o volume de reposição florestal a ser cumprida. Prova disso é que, no ano de 2007, uma das empresas adquiriu uma única carga de carvão vegetal nativo e o cruzamento dos dados apontou uma diferença de 21 MDC recebidos sem cobertura”.

Para Hummel, o levantamento está apenas começando. “Os dados terão desdobramentos com a exigência do cumprimento da Reposição Florestal. São cerca de 10 mil hectares de florestas que deixaram de ser plantadas e que o Ibama vai exigir o plantio. Outras multas poderão ser aplicadas aos fornecedores de carvão”.

Para o Coordenador de Monitoramento e Controle Florestal do Ibama, Carlos Fabiano Cardoso, o Sistema-DOF permitiu identificar irregularidades nos mais diversos biomas, principalmente no Pantanal. “Identificamos informações falsas sobre importação de cavão vegetal do Paraguai. O dado refere-se apenas ao ano de 2007 e os novos sistemas de controle permitiram qualificar e quantificar a real dimensão das irregularidades do setor siderúrgico. Depreende-se da análise que essas irregularidades perduram há décadas, quando não havia ferramentas que possibilitassem explicitar a real magnitude dos ilícitos. Com esse olho eletrônico os predadores e criminosos ambientais que se cuidem”, avisa.
José Humberto Chaves
DBFLO/Ibama

AMBIENTE: MINISTRO DIZ QUE PADRONIZARÁ EMISSÃO DE POLUENTES

Publicado na Folha de São Paulo:

O ministro Carlos Minc (Meio Ambiente) disse que é preciso endurecer as regras de emissão de poluentes das indústrias no país. E afirmou que vai enviar ao Conama (Conselho Nacional do Meio Ambiente) uma proposta para tornar os padrões de emissões atmosféricas mais rigorosos. O anúncio foi feito durante um evento na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), anteontem. "Os padrões nacionais são menos exigentes do que os padrões europeus, o que significa que lá as indústrias se modernizam, e a tecnologia mais suja vem para os nossos países", afirmou.

Comentário:

Esse é um soco no estômago da elite iluminada que pretende mudar o mundo (ai a arrogância sempiterna...), sem mudar a si mesma. Avisa à celebridade Gisele Bünchen e seu blog de sustentabilidade, que ela precisa primeiro mudar a si mesmo e se redimir de ter feito campanha de casaco de peles, entrando de sola agora na campanha contra casaco de peles, se é que ela realmente gosta dos animais e abomina a idéia deles perderem suas peles vivos para se produzir um luxo desnecessário, como os diamantes que agora ela coleciona...

Enfim, o ministro Minc está saindo melhor que a encomenda, basta lembrar que os Estados Unidos transferiram a produção de termoelétricas para Citlali no México. Isso é realmente muito comum, siderurgias e tudo quanto é badulaque poluidor descendo para as praias brasileiras e as maiores personalidades ainda comemoram.

São tempos de barbárie total, os canibais não encontram resistência alguma, ao contrário, recebemos eles de braços abertos.
Falta computar o quanto de água, equilíbrios ecológicos e recursos naturais locais os países ricos e os acelerados, como a China, economizam a custo zero via suas importações. Outra equação que nunca é resolvida, os custos ambientais do fornecimento de bens com uma produção que para o Brasil tem um custo ambiental gigante, um efeito social negativo e cuja produção, para piorar, sob qualquer ponto de vista, é totalmente desnecessária. E ainda comemoramos.

terça-feira, 10 de junho de 2008

"O PIB saiu de moda"

Por Hazel Henderson*

A credibilidade da profissão de economista e de seus modelos macroeconômicos e de análise de risco virou pó devido à débâcle financeira guiada por Wall Street. Muitos analistas vêem esta crise, a pior desde a Segunda Guerra Mundial, como o princípio do fim do fundamentalismo do mercado como condutor da globalização. Também fica evidente o fato de que os Estados Unidos não são mais a única superpotência mundial. A força militar está retrocedendo diante de novas armas utilizadas na geopolítica atual: o dinheiro e os ataques cibernéticos. Inclusive o secretário do Tesouro norte-americano, Henry Paulson, agora pede a regulamentação dos temerários e arriscados bancos privados.

Entretanto, estão emergindo as longamente borbulhantes críticas ao emprego do produto interno bruto (PIB) como indicador das contas nacionais. Essas críticas generalizadas foram resumidas por Robert F. Kennedy em um discurso pronunciado em 1968. Até mesmo o criador do PIB, Simon Kuznets, questionou seu uso como indicador geral do bem-estar ao dizer que "o bem-estar de uma nação apenas pode ser definido a partir de uma medida da renda nacional".

As falhas no PIB começaram a surgir na Cúpula da Terra da Organização das Nações Unidas (ONU) no Rio de Janeiro, em 1992, e também ficaram evidentes na conferência do Parlamento Europeu sobre o tema "Considerando a natureza", em 1995. Em novembro de 2007, o Parlamento Europeu abordou novamente o assunto e o presidente da União Européia, José Manuel Barroso, deu a tônica em um debate sobre o tema "Mais além do PIB" perante quase 700 parlamentares.

A revista The Economist interveio no debate com o artigo "Um quadro extremamente distorcido", no qual crítica a extensa atenção dada ao crescimento do PIB. Este "fetiche do crescimento" tem sido há tempos objeto de inúmeras críticas, mas ver que essa revista, representante da ortodoxia econômica, critica agora a utilização do crescimento do PIB como indicador válido das contas nacionais é um sinal muito importante. O artigo afirmava que uma melhor medição dos índices de crescimento do PIB seria comparar o produto per capita, um sinal de progresso muito mais tangível do que considerar o aumento da população.

Por exemplo, o crescimento do PIB do Japão foi cerca de 2,1% durante os últimos cinco anos, enquanto o PIB dos Estados Unidos aumentou 2,9%. Entretanto, comprando o crescimento médio per capita entre os dois países, surge uma história diferente: os Estados Unidos mostram apenas 1,9% de crescimento, contra 2,1% dos cidadãos japoneses. A renda média per capita do Japão também é maior porque a população japonesa está diminuindo, enquanto a dos Estados Unidos está aumentando. Por sua vez, a Índia desfruta de um rápido crescimento de seu PIB, mas sua população também aumentou rapidamente, o que faz com que mais pessoas devam compartilhar dessa renda.

Mas, também se deve assinalar que o uso da média per capita da renda mascara o modo de distribuição da renda. A média de renda de toda a população pode ocultar, por exemplo, que um país poderia ter uns poucos multimilionários com a maioria de seus cidadãos vivendo na pobreza.

Concordemos que o PIB sobreviveu muito tempo à sua utilidade (começou como medida da produção bélica utilizada na Segunda Guerra Mundial). Agora há melhores indicadores, como o Índice Canadense de Bem-estar (CIW), o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU, o Índice de riqueza do Banco Mundial, o Índice do Progresso Genuíno (GPI), o Índice de Felicidade Nacional do Butão (GNH) e os Indicadores de Qualidade de Vida Calvert-Henderson, que criei com o Grupo Calvert de fundos mútuos socialmente responsáveis.

A verdadeira riqueza e o progresso das nações não podem ser quantificados apenas em dinheiro. Os manuais econômicos estão atrasados e devem ser revistos.

MINC: COMBATE AO DESMATAMENTO ENGLOBARÁ TAMBÉM A CADEIA PRODUTIVA

Broadcast – 10/06/2008
São Paulo, 10 - Entrevistado do Roda Viva, da TV Cultura, o ministro do Meio Ambiente, Carlos Minc, anunciou que, a partir de 15 de junho, as grandes empresas do País - ele enfatizou frigoríficos, siderúrgicas, madeireiras e indústria alimentícia - terão de informar quais são os seus fornecedores. "As empresas serão co-responsabilizadas pelos crimes ambientais cometidos pelos seus fornecedores e arcarão com as penas da lei", disse. Para Minc, é hora de "controlar" a cadeia produtiva. Além disso, segundo o ministro, o governo está fazendo alterações na operação Arco de Fogo, que desde março combate a exploração ilegal de madeira na Amazônia.

Para Minc, a Amazônia não é apropriada para a expansão do cultivo de cana-de-açúcar para a produção de etanol, nem de soja para biocombustível. "Temos suficiente área já desmatada em outros Estados do País para implantar e dinamizar a produtividade dessas culturas. Devemos buscar a preservação da maior área possível da floresta."

O ministro disse que o governo não tratará todas as empresas sediadas na Amazônia indiscriminadamente. "Quem for sério e respeitar as regras será igualmente respeitado. O que faremos é fazer valer a lei", garantiu.

Uma nova métrica no lugar do PIB, será?

A questão da métrica, filha de todos os erros, é comentada a seguir por mim, logo depois de ter lido o excelente artigo do professor José Eli da Veiga, publicado no Valor de hoje e divulgado logo abaixo.
Mudando a métrica...

Sobre mudar a métrica, continuo cético, sem uma mudança de modelo mental, de conjunto de valores, duvido que a métrica seja utilizada. Podem inventar o que for, já temos o trabalho da Nordham University, a teoria do umbral, os trabalhos do NEF, é mais do mesmo dizer que o PIB e as questões sociais e ambientais andam na direção contrária. O sistema não enxerga isso por interesse próprio. Isso cheira a uma elite iluminada que pretende mudar o mundo sem mudar a si mesma.

Inventar a métrica é fácil, o difícil é usarem-na. O PIB de Kusnetz foi um sucesso e não é à toa, porque ele só soma. Os prejuízos sociais e ambientais na ladainha do "mainstream" transformam-se em oportunidades de novos negócios e mais lucros, como se os serviços da natureza pudessem ser replicados sempre por novas tecnologias. Como se investimentos ambientais existissem, sem saber que todos os investimentos são ambientais, não existe nada sem o meio ambiente. E o mais importante, sem reconhecer nossa total dependência em relação à natureza, herança ocidental difícil de ser quebrada.

Não consigo esquecer a resposta que Joseph Stiglitz deu ao Herman Daly quando foi perguntado sobre os limites do planeta e da teoria econômica que causa a rota de colisão atual. Ainda bem que o Stiglitz já tem certa idade e não vai presenciar o legado que essas idéias estranhas irão deixar na Terra. Herman Daly é que deveria comandar esse projeto, mas ele cansou até da matematicização desumanizadora da Revista de Economia Ecológica. Onde está o ponto principal da análise? Por quanto tempo essa discussão inane irá continuar, enquanto perdemos 21 campos de futebol em florestas e biodiversidade a cada minuto?

A imaginação é mais importante que o conhecimento, escreveu Einstein. No mundo atual o conhecimento é abundante, a imaginação é escassa e o óbvio, por essa razão, é totalmente perdido. A elite iluminada precisa parar de querer mudar o mundo, sem antes mudar a si mesma. E temos que parar de achar que temos tempo de sobra para inúmeras elocubrações que nunca ganharam o mundo prático. O mundo prático continua fazendo "business as usual" e a destruição da Amazônia segue a mesma sina das florestas da Europa (99,7% destruído) e dos Estados Unidos (99% destruído). Mais alarmante nessa cegueira toda é que nos governos Lula e FHC dos últimos 13 anos foi destruído 33,4% de toda a destruição acumulada da Amazônia, um território perdido dois terços do tamanho da França. Até o final do segundo mandato do atual mandato, somando tudo, teremos quase 50% da destruição acumulada da Amazônia tendo ocorrido em apenas 16 anos.

Assim caminha a humanidade
VALOR 10/06/2008
Erraram feio os que fizeram pouco da iniciativa do presidentefrancês Nicolas Sarkozy de solicitar à dupla Stiglitz-Sen uma revisão dos "limites do PIB como critério de medida dodesempenho econômico e do bem-estar". Ou melhor, da "mensuração do desempenho econômico e do progressosocial", conforme acabou ficando o título oficial da força-tarefa que está sendo chamada de "Comissão Stiglitz". Apóslongos cinco meses de suspense, três fatos mostram que oprocesso está muito bem encaminhado.
O primeiro é o próprio time. A comissão já se legitimou porcontar com 25 outros craques de imenso prestígio, e com fecunda diversidade de visões e especialidades. Daí aimportância de serem apresentados, mesmo que de formainjustamente breve.
No topo está o decano, Nobel 1972, Kenneth Arrow(Stanford), imediatamente seguido por dois colegas quetambém foram ganhadores do mais cobiçado prêmio deeconomia, em 2000 e 2002: James Heckman (Chicago) e opsicólogo Daniel Kahneman (Princeton). Há mais um deChicago, o jurista republicano Cass Sunstein, e mais dois dePrinceton: o microeconomista Angus Deaton e o especialista em economia do trabalho Alan B. Krueger. Essa bancadaacadêmica americana é completada por outros três criativospensadores: o cientista político Robert Putnam (Harvard), oeconomista ambiental Geoffrey Heal (Columbia), e uma dasmais influentes economistas feministas: Nancy Folbre(Massachussets). Com o presidente Stiglitz (Columbia), e seuconselheiro Sen (Harvard), são onze, dos quais cinco prêmiosNobel.
Entre os acadêmicos europeus, três britânicos e setefranceses. No trio, o já célebre Sir Nicholas Stern (LSE) ladeia o especialista em desigualdade e pobreza Anthony B. Atkinson(Oxford) e o expoente da chamada economia da felicidadeAndrew J. Oswald (Warwick). Com base em Paris, ocoordenador geral Jean-Paul Fitoussi - presidente do OFCE, oCentro de Pesquisas Econômicas da "Sciences-Po" (Instituto de Estudos Políticos) - pinçou dessa mesma organização omacroeconomista Philippe Weil e o politécnico Claude Henry,autoridade no binômio inovação/sustentabilidade.
Mas é claro que também fazem parte o econometrista RogerGuesnerie (Collège de France) e o anterior economista-chefe do Banco Mundial François Bourguignon, respectivamentepresidente e diretor da nova "PSE", "Paris School ofEconomics". Muito mais notáveis do que Marc Fleurbaey(Paris-5) e Jean Gadrey (Lille), mesmo que o primeiro sejaforte referência em ética social e justiça distributiva, e o segundo o autor de ótimo livro sobre novos indicadores deriqueza (traduzido pela Editora Senac em 2006). Muito ligadoàs entidades da sociedade civil que se empenham emreconsiderar a riqueza, Gadrey chegou a propor boicote àiniciativa de Sarkozy. Atitude que perdeu o sentido quando opróprio Stiglitz o convidou a ser um dos membros dacomissão.

Para fechar o panorama acadêmico falta mencionar a única"penetra" nesse triângulo EUA-FR-UK: a também economista feminista Bina Agarwal (Delhi). Hoje mais dedicada ao estudo da ação coletiva para a conservação ambiental, foi quemcolocou a contribuição teórica de Amartya Sen em perspectivade gênero. E participa da rede internacional que procuraoperacionalizar o intraduzível "capability approach".

Além desses 22 professores, há representantes de quatroimportantes organizações internacionais. Pela OCDE, o chefeda área estatística, Enrico Giovannini; pelo Pnud, o númeroum Kemal Dervis; pela Unctad, o diretor Heiner Plassbeck; epelo Banco Mundial, o economista-chefe e vice-presidente Justin Lin. Bem próximo desse quarteto está o representanteda organização nacional que garantirá e zelará pelo bomfuncionamento dos trabalhos: Jean-Philippe Cotis, diretor geral do INSEE, instituto que detém na França a responsabilidade oficial pelas estatísticas e estudoseconômicos.

O segundo fato promissor foi o resultado da primeira reunião,no final de abril, na qual foram discutidos dois "surveys" daprodução científica pertinente. A comissão passou a serorganizada em três grupos de trabalho, cujo enunciado dostemas não poderia ser mais significativo: um vai esmiuçar "osclássicos problemas do PIB", outro vai focar"desenvolvimento sustentável e meio ambiente", e o terceirose concentrará na questão da "qualidade de vida". Até julho deverá estar pronto um primeiro documento sobre aproblemática ("issue paper", que sintetizará as contribuiçõesdesses três grupos, tarefa a cargo de sete técnicos emprestados pela OCDE, OFCE e INSEE, staff dirigido pelo tarimbado estatístico Jean-Étienne Chapron, relator-geral da Comissão).

Não menos importante é o terceiro sinal: a Comissão estáempenhada em trabalhar com máxima transparência e abuscar intenso diálogo público. Para tanto, ainda em junho será lançado um portal que oferecerá um esquema interativoque facilite comunicação direta com os mais interessados,além de disponibilizar documentos de trabalho.

Como o relatório final está previsto para junho de 2009, ospróximos doze meses serão especialmente favoráveis a projetos e ações de revisão das obsoletas convenções para amedição da riqueza, uma noção aparentemente simples, mascuja ambigüidade gera muita confusão. Além disso, sistemasde medição embutem forte inércia institucional, mantendosempre muito atraso em relação aos avanços científicos. Osegípcios, por exemplo, só corrigiram o calendário em 238 A.C.,praticamente quatro milênios depois de terem calculado umaduração do ano solar de 365 dias e um quarto. Com certezaserá bem mais rápida a mudança das atuais medidas da riqueza, embora nada autorize supor que as recomendaçõesda Comissão Stiglitz venham a ser facilmente assimiladas pelaONU, ou por outros atores cruciais, como o FMI. O processomal começou, pois a principal incógnita do problema resideem saber se avanços das ciências sociais aplicadas jápermitem, de fato, a imprescindível superação do PIB, assimcomo desse seu precaríssimo desdobramento que é o IDH(Índice de Desenvolvimento Humano).
José Eli da Veiga - professor titular do departamento de economia da FEA-USP e pesquisador associado do "Capability & Sustainability Centre" da Universidade de Cambridge, com apoio da Fapesp, escreve mensalmente às terças.
Página web: www.zeeli.pro.br

Pode um banco ser sustentável?

Por Gustavo Pimentel em 21/05/2008


A pergunta do título foi o tema da palestra do vice-presidente de um grande banco internacional para uma platéia de quinhentos jovens, oriundos de oitenta países. O cenário era Belgrado, capital da então Sérvia e Montenegro, apenas quatro anos após o fim da Guerra dos Bálcãs. No caminho para o centro de convenções, avistavam-se prédios públicos bombardeados ao lado de hotéis cinco estrelas recentemente construídos. A pergunta-tema da palestra de cinco anos atrás ainda está no ar: qual seria o papel de um banco para a sustentabilidade?

O setor financeiro realmente tem um papel preponderante na economia mundial. "Eles alocam recursos escassos entre os setores e atividades econômicas", dizia um empolgado asiático naquela palestra, parecendo ter saído direto de sua aula de economia na faculdade. O homem-aranha diria aos bancos: "quem tem um grande poder deve arcar também com uma grande responsabilidade". De fato, hoje já não se engole mais o discurso das instituições financeiras que se intitulam 'sustentáveis' pelo simples fato de usar papel reciclado, ter políticas de diversidade para os funcionários e usar energia renovável nos prédios administrativos. Ainda que essas sejam ações importantes, que servem de base para entender também seus impactos indiretos.

Quando examinamos o que tem sido feito para diminuir o impacto indireto, deparamos com soluções que podem se aplicar a qualquer setor: políticas de contratação de fornecedores e benefícios para funcionários terceirizados, papel reciclado nos talões de cheque dos clientes, neutralização de carbono nas viagens de avião dos funcionários. Para que a questão semântica pare de atrapalhar o diálogo com o setor financeiro, é necessário ser explícita: sustentabilidade está ligada ao que a instituição financia (ou investe). Diga-me quem financias, que te direi quem és.

Essa discussão está geralmente ligada ao 'como fazer'. Os bancos têm desenvolvido políticas que incorporam a análise socioambiental ao risco de crédito. Isso faz com que dimensionem melhor os riscos, mas não os impede de financiar atividades altamente impactantes, desde que o retorno seja adequado. Como já pode ser lido em algumas políticas socioambientais de crédito: "apenas em casos extremos será negado financiamento". Um viés parecido têm os atuais Princípios do Equador (PE), desde que as 'salvaguardas' do PE1 se transformaram em 'padrões de desempenho' do PE2. No entanto, já há benchmarks internacionais consistentes para desenvolver tais políticas de forma específica para setores e temas sensíveis, conforme demonstrou o relatório Mind the Gap do BankTrack.

Mas é preciso aprofundar a discussão para a linha de 'o que financiar'. Como instituições que alocam recursos escassos, os bancos devem direcionar suas carteiras para setores e atividades que contribuam para a tão necessária mudança nos padrões de produção e consumo vigentes, rumo à sustentabilidade. 'O que' e 'como' andam de mãos dadas nesse caso: não adianta ter linha de crédito para reflorestamento se a política geral não veda crédito para atividades que desmatam. É pouco relevante dar alguns milhões para energia eólica se as termelétricas recebem bilhões. Esse tipo de atuação já é percebido como maquiagem verde e cria passivos reputacionais para alguns bancos brasileiros. É o mesmo que financiar os hotéis cinco estrelas para que turistas apreciem a ruína de Belgrado.


Gustavo Pimentel, economista, é Gerente de Eco-Finanças da ONG Amigos da Terra - Amazônia Brasileira, que representa no Brasil a rede BankTrack.

De onde vem seu bife?

Do site eco-financas.org.br:

O Idec enviou cartas para as três maiores redes varejistas do país, questionando sobre sua preocupação em relação à rastreabilidade da carne bovina vendida por elas: Carrefour, Pão de Açúcar e Wal-Mart. Buscamos informações sanitárias, ambientais e sociais da cadeia de produção da carne.

As respostas de todos eles foram, para o Idec, insuficientes. Em várias delas, as empresas afirmaram possuir cláusulas contratuais - "garantindo" que não há desmatamento ou trabalho escravo, por exemplo, nas propriedades que produzem a carne que comercializam - porém sem informar se fazem ou como fazem o controle para de fato garantir seu cumprimento.

Só o Grupo Pão de Açúcar detalhou a forma como faz esse controle - restrito a apenas 1% de toda a carne bovina comercializada pela empresa. Mas a iniciativa demonstra que é possível, sim, que os varejistas tenham grande controle sobre a forma como é produzida a carne bovina que o consumidor encontra na gôndola. E que ela deve ser louvada.

Veja um resumo das respostas dos supermercados:

O grupo Carrefour - que detém quatro bandeiras de supermercados (Carrefour, Carrefour Bairro, Dia% e Atacadão) - focou suas respostas apenas no programa "Garantia de Origem", que possui critérios de seleção de fornecedores e de garantia de qualidade da carne, e contempla apenas 40% do que é vendido pela rede. As informações fornecidas pouco revelaram sobre a origem da carne, ficando em um plano apenas conceitual, sem dados concretos. A empresa se limitou a listar alguns dos principais frigoríficos fornecedores e, com relação aos municípios de origem da carne, disse que ela "é proveniente de todo o território brasileiro, com pequeno volume importado".

Questionado sobre a disponibilização das informações que possui sobre rastreabilidade da carne bovina nos rótulos dos alimentos, o grupo disse que elas estão em "plaquetas informativas, inseridas próximas a cada um dos tipos de carne e de corte".

Com relação ao controle para evitar que a carne venha de áreas de desmatamento ou em que se utilize trabalho escravo, a empresa informa que avalia "os aspectos sociais e ambientais de cada uma das fazendas" antes de cadastrá-las e que, em caso de irregularidades, o produtor é "automaticamente retirado do programa".

O Grupo Pão de Açúcar (Companhia Brasileira de Distribuição), detentor de oito bandeiras de varejo (Pão de Açúcar, Extra Hipermercados, Extra Perto, Extra Fácil, Extra Eletro, Sendas, Comprebem e Assai), foi o único a listar as cidades e fazendas de onde vem a carne. Mas essa informação serve para apenas 1% da carne comercializada, inserida no "Programa de Produção de Carne de Qualidade". Para a maioria restante, não há dados sobre controle efetivo de qualidade e de passivos ambientais e sociais.

A empresa informou que "antes de cadastrar uma fazenda, ela passa por entrevista e visita técnica para verificar a relação entre empregador e empregados, aspectos ambientais e técnicos". Diz ainda que todo o gado possui certificação do Sisbov (Serviço Brasileiro de Rastrabilidade da Cadeia Produtiva de Bovinos e Bubalinos, um programa voluntário para a produção voltada ao mercado interno) e que há acompanhamento de técnicos de nutrição, reprodução e sanidade. O Idec acredita que a empresa poderia ter fornecido mais dados para que se soubesse exatamente como é feita essa gestão social e ambiental.

Já o Wal-Mart, que possui nove bandeiras de supermercados (Wal-Mart Supercenter, Todo Dia, Maxxi, Sam's Club, Hiperbompreço, Bompreço, Mercadorama, Nacional e Big), deu respostas incompletas e esclareceu pouco sobre sua participação na cadeia. Disse que compra carne de dois frigoríficos e que "os nomes das fazendas e os municípios [de onde vem a carne] são informações dos frigoríficos que fornecem para o Wal-Mart. Portanto, não possui essa informação".

A empresa afirma também que inclui cláusulas em seus contratos que garantem que todos os animais abatidos venham de "territórios que não sejam áreas de desmatamento". Mas não deixou claro como - e se - tem um controle efetivo para se assegurar disso.

Com relação ao controle de uso de trabalho escravo pelos fornecedores, o Wal-Mart diz que "caso um fornecedor não atenda as cláusulas do contrato ou passe a integrar a 'lista suja' do trabalho escravo, ele é descontinuado da lista de parceiros da empresa". Isso, ao mesmo tempo em que afirma não ter a relação dos produtores que vendem para os frigoríficos de onde compra - dado imprescindível para ter controle dos contratos.